Arquivos para: Agosto 2007

Walter Cruz
31/08/2007

Letra Morta

Há alguns dias, Jorge Camargo se apresentou aqui em Brasília. Dentre as muitas canções que eu ouvi, algumas antigas, como 'Teus Altares' e 'Ajuntamento', outras novas, como as músicas inspiradas em personagens da história da igreja, como São Francisco de Assis, e algumas outras canções lindas da nossa MPB, como Canção da América e Vieste, escolho a letra abaixo para publicar, pela verdade da mesma e pelo que se tornou o cristianismo hoje em dia, tão pagão...

Está no livro, está no templo
Mas não está no coração
Está no hebraico, está no grego
Mas não se fez encarnação

Está na forma, está nas fôrmas
Mas, Deus do céu, como serão
Os dias que estão por vir
Debaixo de tanta opressão?

Está na letra, está na lupa
E lá se foi a compaixão
Está nos lábios, está na lábia
De quem há muito já não tem noção

Do desvario, dos vãos desvios
Da estupidez da ostentação
Em olhos que não querem ver
A sua própria condição…

E a lábia é falsa,
E os lábios tremem,
E a lupa aumenta,
E a letra mata,
E a língua é pobre,
E o livro fecha,
E o templo é pedra…!

Walter Cruz
27/08/2007

A emoção do culto

Dentro do mundo evangélico, a constatação do fenômeno da busca das emoções-choque é clara. Em alguns lugares, o culto é um lugar onde a ênfase recai num encontro transcendental e místico com Deus, com pouco espaço para uma reflexão e interiorização do evangelho. Até a palavra pregada não é clara em trazer reflexões e ponderações que se apliquem com praticidade ao nosso dia a dia, mas sim em trazer comoção e culpa (muitas vezes disfarçada de arrependimento). Uma coisa negativa desse tipo de conduta é que esse ataque visceral à emotividade das pessoas não atinge a todo, e muitas vezes alguém que não é suscetível à esse tipo de emocionalidade, por pensar que todas essas manifestações (ou pelo menos algumas) são obra do poder de Deus, passa a considerar que algo errado está acontecendo com ela, já que sua alma não é atingida por essa onda de tentativas de arrombamento das emoções. E as pessoas passam sempre a procurar a 'dose mais forte', procurando uma unção maior, um êxtase maior, e muitas vezes isso não se reflete em mudança no interior da pessoa. Queria que o alerta do livro se propagasse por muitos lugares. Queria que mais e mais pessoas olhassem os lírios do campo.

Walter Cruz
13/08/2007

Alerta das Flores

Link: http://bomdiabrasil.globo.com/Jornalismo/BDBR/0,,AA1609183-3682-713741,00.html

Praça da Liberdade, cartão-postal de Belo Horizonte, inspiração para a arte. Mas neste ano...

"Era para ter mais cor, por causa dos ipês. Geralmente, nessa época, ficaria tudo mais colorido, mais florido. Agora...", compara uma mineira.

Agora, pouco se vê das flores que deveriam cobrir o emaranhado de galhos.

"Eram ipês roxos, as árvores cheias, bem floridas. Agora, não está. Cadê o ipê roxo", pergunta uma mulher.

"As flores roxas sumiram", constatam uma visitante.

Vieram antes do esperado e já se foram. E uma surpresa. Que ipê é esse que já está quase todo em flor? É o branco.

"Floresceu antes da hora. É sempre o último a florescer. Isso é estranho. Deve ser por causa do clima", afirma um senhor.

Sim, o clima. Esta é a explicação para o fenômeno que foi estudado no campo por técnicos da Embrapa.

"Menos chuva, menos umidade, menos água disponível no solo, a temperatura é sempre mais elevada. Em todos os meses de 2007, a temperatura foi cerca de 1ºC ou 1,5ºC acima da esperada e a natureza sente", explica um técnico da Embrapa.

Como a temperatura e a umidade comandam o relógio biológico das plantas, as mudanças climáticas confundiram as árvores. Segundo os pesquisadores, o calendário dos ipês está um mês adiantado. Em um, a florada está quase no fim.

No ano passado foi bem diferente. As flores só surgiram em setembro, quando uma foto foi tirada. A imagem mostra puro amarelo. Desta vez, na pressa, as árvores deram menos flores. Não estavam prontas e o que mais preocupa é que o ciclo, como começou, será concluído fora de época.

Depois das flores, dos frutos e deles, as sementes também precoces. Já estão caindo no solo muito antes do período da chuva.

"Esta árvore não vai gerar descendentes esse ano, com certeza. Se o clima continuar mudando do jeito que estamos percebendo, cada ano mais quente, batendo recorde de temperatura, a tendência é que estas espécies vão fazer sempre a mesma coisa: jogar a semente no chão na hora errada, comprometendo o futuro da espécie", diz o especialista.

Tristeza. O turista planejou vir antes das flores só para fotografar.

"Vou ficar na saudade", lamenta.

O que ficou diante dos olhos foi um alerta. No interior e na capital de Minas Gerias, neste ano onde se vê o ipê é possível enxergar um belo recado.

"A beleza é visível, mas é a vida está em jogo, em um prazo mais longo. É de mudar", lembra um senhor.

Pesquisadores da Embrapa dizem que esse fenômeno já foi registrado nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte do Brasil.

Fonte: http://bomdiabrasil.globo.com/Jornalismo/BDBR/0,,AA1609183-3682-713741,00.html

Walter Cruz
08/08/2007

O culto da emoção

8 de Agosto de 2007 por

Walter Cruz


photo of 'O culto da Emoção'

★★★★☆

No início de 2007, comprei em um sebo o livro "O culto da emoção", do filósofo francês Michel Lacroix. No livro, o filósofo argumenta sobre a existência de dois tipos de emoção: a emoção-choque e a emoção-contemplação. O segundo tipo de emoção é simbolizado por alguém que se emociona com um pôr-do-sol, ao ouvir uma música agravável, ao admirar uma pintura. Já o primeiro, é a emoção tipificada pela catarse coletiva, por um show pirotécnico de rock (ou qualquer show onde o foco não seja ouvir, mas sentir). O símbolo da emoção-choque é o grito, da emoção-contemplação é o suspiro. A partir dessas premissas, o autor faz o seguinte questionamento: "o indivíduo moderno emociona-se muito, mas será que sabe sentir?".

O livro mostra como, durante muito tempo, a emoção foi relegada a uma segunda categoria, e como, no último século, ela foi conquistando um lugar maior dentro da sociedade. Mas, nessa busca por libertação das emoções, temos caído em outro extremo, o das emoções-choque. O homem ideal de nossa época já não seria mais o homo sapiens, mas, sim, o homo sentiens. Sua terapia não é verbal, mas não-verbal: grito primal, o renascimento e outras (terapias alternativas com um apelo mais direto à emoção). Se possível, ele viaja o mundo, não para conhecê-lo, mas para arrancar dele a maior quantidade de adrenalina possível. Seu modelo é o xamã: o sacerdote feiticeiro que em cerimônias sagradas usa a dança, tambores e drogas para entrar em estados alterados de consciência, e que é o curandeiro da tribo. Esse é outro paralelo que o autor traça: embora envolvidos em raves e superestimulados, as pessoas de hoje sentem uma compulsão por tornar o mundo um lugar melhor.

Uma coisa que achei um pouco chata no livro foi que ele reserva um enorme espaço para os sintomas do problema e o problema, mas pouco para as possíveis soluções. Mas quais seriam elas? Um retorno às emoções simples, um mergulho dentro de si mesmo, uma rejeição à super-excitação que toma conta de nossa sociedade hoje em dia. Se tem alguma coisa que depõe contra esse ensaio do filósofo francês, é o pequeno espaço dedicado às soluções. Outro pequeno contra é que os exemplos todos são um pouco franceses (ou europeus) demais, mas é inegável que a situação descrita nesse livro é de certa forma universal.