Categoria: C. S. Lewis

"Eu não consigo dizer o que quero na sua amaldiçoada língua"

Essa frase introduz um trecho genial na obra de C. S. Lewis. A partir dessa frase, Weston, um dos personagens de "Longe do Planeta Silencioso",  passa a receber a interpretação de Ranson em seu discurso ao Oyarsa (uma espécie de 'guardião') de Malacandra (Marte). Ranson, ao interpretar o discurso de Weston, desnuda suas intenções malignas e perversas. Interpreta não o significado literal das palavras, mas sim a perniciosa intenção do que Weston quer dizer. Nos evangelhos, Jesus nos adverte para que haja correspondência entre nossas palavras e nossas intenções: "O vosso falar seja sim sim não não; porque tudo o que passa disso vem do Maligno", embora muitas vezes nossas palavras escondam nossas reais intenções. No livro, através da interpretação de Ransom, é possível ouvir o que Weston diz, e o que realmente está sendo dito. O discurso e a sua interpretação nos fazem refletir sobre aquilo que falamos. Usamos nossas palavras para nos revelar ou nos esconder? Que intenções teriam nosso discurso hoje?

Outra cena que me emociona é uma das cenas finais da última Crônica de Nárnia, a "Última Batalha". Emeth, que servia a Tash, sai ao encontro do que pensava ser o verdadeiro Tash. Porém, para seu espanto, descobre que não havia Tash, mas apenas o Leão, Aslam. Ele aparece perante Aslam cheio de temor. Mas para sua surpresa, é recebido por Aslam com alegria: nas palavras de Aslam: "Todos encontram aquilo que realmente procuram". Nesse episódio (e também em outros trechos de suas obras), Lewis aborda sutilmente a questão do encontro com Deus para além das portas das instituições 'oficiais'. O texto, que mostra a bondade de Aslam, é reflexo da bondade e misericórdia de Jesus: "Peçam, e lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta. Pois todo o que pede, recebe; o que busca, encontra; e àquele que bate, a porta será aberta" (Mateus 7:7, NVI).

No dia 29 de novembro, comemorou-se os 110 anos de nascimento de C.S. Lewis.

Walter Cruz
31/10/2007

Lewis e Melquisedeque

"Penso que toda oração feita com sinceridade, até mesmo a um falso deus ou a um Deus verdadeiramente mal concebido, é aceita pelo Deus verdadeiro e que Cristo salva muitos que nem pensam que O conhecem'"
Letters of C.S. Lewis, edição revista e ampliada, editada por W.H. Lewis e Walter Hooper - New York - Harvest - página 128

"Existem pessoas que não aceitam toda a doutrina de Cristo, mas que são a tal ponto por ele atraídas que chegam a pertencer ele num sentido muito mais profundo do que elas mesmas poderiam compreender. Existem membros de outras religiões que, pela influência secreta de Deus, são levados a concentrar-se naqueles elementos de suas religiões que concordam com o cristianismo, e que assim pertencem a Cristo sem o saber" - Cristianismo puro e simples, Editora Martins Fontes, Livro 4 - capítulo 10 - página 275-276.

(Citações extraídas do livro As Crônicas de Nárnia e a filosofia)

Walter Cruz
22/05/2006

Puro e Simples

Terminei de ler, recentemente, o livro "Cristianismo puro e simples", do escritor inglês (na verdade, irlandês), C. S. Lewis.

O livro é uma compilação de uma série de programas de rádio sobre a fé cristã, feitos por Lewis entre 1942 e 1944, durante o período da segunda guerra mundial. Mas poderiam ter sido feitas ontem.

Ele trata dos temas e ensinamentos básicos do cristianismo: a lei natural, a noção de um Criador, o pecado, o bem, o mal, o diabo, redenção, comportamento, amor, fé, moralidade, casamento, perdão, eternidade e trindade, entre outros.

Ao ler o livro, a impressão que tive é que nós, cristãos, temos sido roubados. Não um roubo doutrinário: embora algumas igrejas tenham extrapolado alguns desses conceitos, passando desde incoerências até a erros completos sobre alguns deles, não é desse roubo que falo. É do roubo estético.

Parece que os evangélicos escolheram a música (e em alguns casos, apenas um sub tipo de música ruim com chavões recorrentes) como sua arte (em detrimento do teatro, dança, poesia, literatura e todos os outros tipos de arte), deixando para a teologia a tarefa de traduzir verdades em (insípidas) palavras. Ou, para ser mais sucinto: qual foi a última vez em que você ouviu a doutrina da trindade explicada de uma forma bela? Você já ouviu a encarnação explicada de uma forma empolgante?

Fica uma ressalva: a beleza não é a verdade, nem toda verdade é bela. A redenção é bela, mas a queda não (mas para chegarmos à primeira, temos de passar pela segunda). Usamos a matemática para calcular nossos créditos e débitos no final do mês (cujos resultados não são sempre bonitos). Um especialista em computação gráfica usou a matemática como uma das ferramentas para dar vida ao leão Aslam, que a tantos emocionou na recente filmagem de "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa".

Dito isso, deixo pequenas citações do livro:

"Não devemos nos preocupar com os irônicos que tentam ridicularizar a esperança cristã do 'Paraíso' dizendo que 'não querem passar a eternidade tocando harpa'. A resposta que devemos dar a essas pessoas é que, se elas não entendem os livros que são escritos para adultos, não deveriam palpitar sobre eles. Todas as imagens das Escrituras (as harpas, as coroas, o ouro etc.) são, obviamente, uma tentativa simbólica de expressar o inexprimível. (...) As pessoas que entendem esses símbolos literalmente poderiam pensar que, quando Cristo nos exortou a ser como as pombas, quis dizer que deveríamos botar ovos."

"Ele opera em nós de diversas maneiras: não apenas dentro dos limites do que chamamos 'vida religiosa', mas também por meio da natureza, do nosso próprio corpo, dos livros, e às vezes inclusive mediante experiências que poderiam ser vistas (na hora em que aconteceram) como anticristãs."

"Com quase toda certeza, Deus não está no tempo. A vida dele não consiste de momentos que são seguidos por outros momentos. Se um milhão de pessoas oram para Ele às dez e meia da noite, Ele não precisa ouvi-las todas no instantezinho que chamamos de dez e meia. Dez e meia, ou qualquer outro momento ocorrido desde a criação do mundo, é sempre o presente para Deus. Para dizê-lo de outra maneira, Deus tem toda a eternidade para ouvir a brevíssima oração de um piloto cujo avião está prestes a cair em chamas."

Walter Cruz
22/12/2005

O grande abismo

Trainspotting
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Recentemente, li o livro "O grande abismo", de C.S. Lewis, que trata de questões como céu, inferno, purgatório e vida pós-morte. Não é um livro teológico. Nele, Lewis, no uso de sua fértil imaginação, percebe o céu, o inferno e as almas em ambos os lugares. A leitura é agradável, e espero que, com o lançamento próximo de alguns livros de Lewis pela editora Vida e pela Martins Fontes, o autor seja mais divulgado.

O fato é que, nos últimos doze meses, tenho menos certezas e menos respostas sobre diversas questões - e isso me permitiu gostar do livro ainda mais. Sempre achei o conceito de eternidade (no sentido de um tempão que nunca acaba) muito deslocado.

Ao ouvir pregações de que passaríamos a eternidade adorando a Deus (some-se a isso a equação evangélica que diz adoração = música), eu sempre achei que, no fundo, o céu seria um lugar muito chato. Em contrapartida, Deus me parecia muito cruel em jogar num lugar de sofrimento, por um tempo infindável, alguém que pecou contra Ele num tempo finito.

Dito isso, tenho algumas considerações sobre a parábola do rico e de Lazáro (LC 16:19-31):

Como pessoas mais espertas que eu já disseram, é um erro estabalecer doutrinas com base em parábolas. Alguém poderia argumentar que o texto em questão não é uma parábola, já que é o único texto em que um dos personagens recebe um nome próprio. Eles dizem que essa história aconteceu de fato.

Porém, eu penso que o fato de um dos personagens ter nome próprio - longe de dificultar a interpretação do texto - é a chave que o abre e lhe confere uma dramaticidade singular.

O rico é descrito como alguém vestido de purpúra e linho fino, vivendo em luxo, enquanto Lázaro vivia doente, a mendigar e a desejar migalhas do rico, num estado que se convencionou chamar de lazarento. Claro: o rico não é a riqueza que possui, assim como Lazáro não é a pobreza em que vive.

Mas, embora não esteja explícito no texto, pode-se compreender o seguinte: Lázaro, em algum instante de sua vida se percebeu, deu-se conta de sua pessoalidade, de sua realidade. Já o rico, nunca se deu conta de nada nesse sentido: o que ele percebe são investimentos, lucros e riquezas. Por isso, Lázaro é para si mesmo 'Lázaro', e o rico é para si mesmo apenas 'rico'.

Vendo o Hades como um 'não-lugar', vemos que o rico, que é uma 'não-pessoa', vai para o não-lugar. Lazáro, que é uma pessoa, vai para o seio de Abraão (outra pessoa).

Observe que, mesmo no inferno, o rico continua igual. O seu inferno é apenas a continuação do inferno existencial que foi sua vida. De lá do seu inferno, ele não fala com Lázaro. Fala com Abraão, pois ainda tem a mentalidade de falar 'de patrão para patrão'; e o rico não pode passar para o lado de Abraão. Abraão lhe diz que quem tenta 'não consegue'. Isso porque o inferno não era o lugar físico - ele estava, de certa forma, contido na consciência e na alma do rico. Para onde ele fosse, carregaria consigo seu inferno existencial.

Como diz Lewis, embora não gostemos, devemos ceder à doutrina do inferno. Isso porque qualquer outro lugar seria terrivelmente ruim para quem carrega o inferno dentro de si.

Mas, carrego dentro de mim, o desejo de que tal lugar não exista. Podemos crer no inferno literal e desejar o céu para nós mesmos (e quem sabe o inferno para alguém que não gostemos ou não concorde conosco?) ou podemos perceber que, literais ou não, céu e inferno existem dentro de nós.

E existem cristãos que vivem uma existência infernal, e 'ímpios' de todas as tribos, povos e raças, que levam o céu por onde passam.

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