Por Aline Menezes
A casa tinha dois quartos. Era pequena. Sem luxo algum. A propósito, a simplicidade da casa refletia na criança a satisfação de ser criança. Não precisava se preocupar com móveis caros. Não precisava se preocupar em não quebrar objetos caros. Tudo era muito simples.
Nove anos. Era essa a idade da criança sorridente. Os vizinhos ainda se lembravam dela caminhando descalça pelas calçadas da cidade. Cabelos lisos. Castanhos. Pele morena. E divertida, embora tímida em algumas situações. Seu nome? Ah, seu nome...
O seu Jânio e a dona Zuleide, o casal mais velho da vizinhança, diziam que ela era esperta, que gostava de sentar no sofá e conversar. Falar sobre coisas que ela mesma não entendia. Era a presença do casal de idosos que inspirava curiosidade naquela menina.
- Seu Jânio, o senhor gosta do jornal? Ela perguntava.
- Sim, é bom pra gente ficar sabendo das coisas. Respondia o senhor.
Uma das coisas que mais chamavam a atenção da criança na casa daquele casal eram as bonecas tão bem guardadas por dona Zuleide. Brinquedos que estavam lá há anos. Dona Zuleide ainda tinha sua primeira boneca, que ganhara quando ela ainda era menina. Curiosa, a criança sempre pedia pra vê-las.
- Dona Zuleide, a senhora pode me mostrar aquela ali? Ela apontava em direção à mais antiga.
- Claro, meu anjo.
- Segura um pouquinho! A criança adorava isso.
E eram assim todas as outras noites. Ela tomava banho e dizia:
- Mãe, vou ver seu Jânio e dona Zuleide.
O tempo passou.
A cidade mudou.
Os vizinhos eram outros.
Seu Jânio e dona Zuleide... ela sabia pouco sobre eles agora.
E, ainda hoje, a criança, já mulher, sente saudades daquelas noites, em que a menina simplesmente queria ver o que ela não tinha.
Parte de sua história está lá, naquela cidade, naquela cidade que mudou.
Saudades dos vizinhos que não estão mais lá!
Olhou-a nos olhos. Era reconfortante simplesmente estar ao lado dela, caminhando. Parecia que toda a tensão que ele havia sentido horas atrás, ao imaginar-se dando a triste notícia a ela se desvanecera em um único instante. No instante em que a viu sorrir.
Não obstante sentir-se mais leve, sabia que tinha de dizer. Ele desistira. Sim. Desistira de tudo. Desistira de seus sonhos. Sempre lhe disseram que havia nascido para ser um fracassado. Sempre disseram que a sua família era uma família de joões ninguém. Por anos seguidos ele lutou contra isso, com todas as forças que tinha. Até aquele instante.
Ele diria isso a ela. Admitiria sua incompetência. Admitiria seu destino. Ser mais um João ninguém. Na verdade, ele teria ficado pensando nisso a tarde toda, olhando abobalhado para o horizonte, não fosse a doce voz dela interromper a cadeia de seus pensamentos, fazendo o tremer de leve.
- Eu tenho dois tipos de amigos.
Diabos! Ela o desarmou completamente. O que será que ela queria dizer com aquilo? Uma coisa era certa: ela devia ser uma bruxa ou algo assim. Com o tempo, aprendeu a ouvi-la dar as respostas antes que as perguntas saíssem de seus lábios. De alguma forma, parecia que ela sempre sabia o que ele estava pensando! Isso o incomodava. Isso o fascinava. Ele adorava isso. Ele odiava isso. Gostava porque não gostava. E não gostava porque gostava.
- O que você quer dizer com isso?
Tentou fazer a voz mais decidida possível. Queria parecer estar no controle, embora tivesse intuído desde o primeiro instante em que a viu que nunca teria mais o controle. Não nesse caso, pelo menos.
- Eu tenho amigos vencedores e amigos perdedores.
Diabos! Aquela coisa enigmática. O dizer pelas entrelinhas. Ele era péssimo nisso, tinha de admitir. E, respirando fundo, como que para dizer que ainda estava no controle, disse com a voz meio lamuriosa:
- O que você quer dizer com isso?
Ela sorriu docemente. Ah! Como ele adorava quando ela fazia isso! A expressão dela mostrava resolução e força, embora os traços fossem suaves e delicados. Por alguma razão, ambos perceberam na hora que estavam parados naquilo que ele chamou de `momento entre momentos´. Havia tentado dar uma explicação filosófica sobre isso uma vez. Não sabia se tinha sido compreendido. Mas sabia dizer quando acontecia esse momento. E dessa vez não apenas ele soube. Ela também sabia.
- Tenho amigos perdedores e vencedores. Mas não tenho amigos covardes.
Um dia ele ainda ia perguntar a Deus como ela lia os pensamentos dele dessa forma. Mas sentia-se extremamente grato por tê-la ali naquele instante. Esqueceu o discurso que ensaiara na frente do espelho. Não era mais necessário.
por Walter Cruz
Morrer. Enquanto piso com meus pés, e afogo-me na idéia, morrer. Não me assusta. Mudança já, eu que não era. Eu poderia partir e tudo estaria bem, penso, sentando-me, o clima gostoso do parque, a atmosfera tão doce, o ar carregado de maçãs, pêras, pêssegos levitando. Posso olhar em torno, enxergando coisas, como se estendesse a mão e pegasse: bom. Apóio o queixo na mão, admirando mães e babás com crianças que correm em volta. Eu poderia partir e isto não me assusta. Que engraçado.
O que eu acho (os pensamentos em mim ora detendo-se quando meus olhos fitam rostinhos róseos, faces sorridentes, e eles seguem depois, continuando sua caminhada) é que a vida é muito mais - muito mais. Não tendo parâmetros, tenho a fé. A vida em sua variedade, caleidoscópica, e não limitada a isto: meus olhos sobre rostos, sobre cenas, sobre pequeninas alegrias ou dores, instantâneos, e em outros momentos não é diferente. Não subestimo a vida, ou a condeno. Mas a vida é - estaco, definir como, que palavras, elas já foram abusadas de todas as formas - maior, maior. Ela é maior e eu não sei a quê isto me leva. Há porém uma excitação me percorrendo, plena em mim, a arder o tempo todo, ainda que às vezes obscurecida-abafada por ruídos, dramas, preocupações, sensações externas: e depois. E depois. Quero o depois, ainda que não saiba o que é. O depois me fascina.
Eu - eu achava esquisito, incompreensível em Zina isto, este viver mais do lado de lá do que do de cá, eu não vivo assim, é certo, mas volta-me, e me lembro saudavelmente: isto não termina aqui. Há muito mais, muito mais que eu não sei. É difícil pôr isto em blocos arrumados, discerníveis. Enquanto eu não sentia eu não soube.
Zina com seus óculos, o sorriso triste-doce, "eu vivo mais do lado de lá", eu não compreendia. O alicerce da sua fé é totalmente diferente do meu, mas igual nisto: não temos fim. E não o dizemos em lições habilmente decoradas, recitando nossos credos. Ela sabe. Eu sei. Isso existe, e é tão maior. Inclino a cabeça, admirando criancinhas bem pequenas dando os seus (possivelmente) primeiros passos. A aventura. E o que ela vai descobrir depois, tanto - e não haverá angústia. O fim da angústia é estar em algum lugar intensamente, e estar disposta a partir para outro, intensamente. Não é budismo, fim do desejo, aniquilação da vontade, horror: é saber que eu continuo, aqui e lá. Não sou um fio cortado, ou prestes a sê-lo, minha vida não é uma linha nas mãos das Parcas gregas, que pode ser partida a qualquer momento. Eu atravesso, e existo. Meu ser é ilimitado. E no Ilimitado estou.
Idéias súbitas, loucas, e se eu me levantasse e fosse até aquela senhora, e lhe dissesse? A vida é - vêm-me as palavras, tropeço nelas, que ilusão, é que nada pode ser dito sem palavras. Nossa dependência delas é enorme. Eu diria: "A vida é" e a seguir o quê? Não faço o gesto, não me levanto, ela não me entenderia, e eu não tenho as palavras. Nós somos, eu podia dizer, Nós somos, e não simplesmente estamos, Nós somos! E ela me estranharia, as conveniências, eu seria tida por louca. Contudo, nós somos. A vida é. E tão maior, tão maior, maior do que tudo que já sonhamos; nem sabemos sonhar a verdade.
Essa história bem poderia se passar em qualquer cidade, a qualquer hora. Mas se passa na cidade do Rio de Janeiro, numa tarde de primavera tão linda que nos traz lágrimas aos olhos.
Luiza era uma linda moça. Idade incerta, mas certamente estava entre os 20 e trinta anos. Sensível e inteligente como poucas. Andava lentamente pelo calçadão da praia de Ipanema por volta das 18:00 da tarde. Por causa do horário de verão, o sol ainda não havia se posto. Seus pensamentos vagueavam até uma outra cidade, onde estava alguém que ela não queria esquecer...
- O que ele deve estar fazendo agora? Pensava Luiza.
André, a pessoa em questão, havia conhecido Luiza por uma dessas obras do acaso. Viera ao Rio a trabalho, pela primeira vez em sua vida. Viajou de avião (na classe econômica, claro!), e logo que chegou se encantou com a cidade. As cores, as formas, os cheiros. Apesar de ser paulistano até a alma, apaixonou-se pelo Rio à primeira vista. E Luiza apaixonou-se por André. Tinha sido incumbida de ciceronear o representante de uma empresa paulista que procurava expandir seus negócios. Esperava um velho, barrigudo e careca, mas nunca o André. Não que ele fosse bonito, mas alguma coisa nele mexeu com ela.
Ao contrário de Luiza, André não caiu de amores por ela assim que a viu. Muito bonita a "mina", não há como negar. Ms estava tão preocupado em se sair bem que pouco reparou na moça. Passaram um bom tempo juntos, cruzando a cidade, do Santos Dumont à Barra. Ele, calado, embevecido pela beleza do Rio, ela muda porque isso nunca havia acontecido antes.
Tudo correu bem na reunião de André. Contrato firmado, ainda com tempo de pegar a última ponte aérea e chegar em Sampa no mesmo dia. Não que ele tivesse com pressa de ir embora, mas, o dever chama.
Ao descer do carro que foi deixa-lo no aeroporto André pergunta:
- Será que você poderia me dar seu telefone? Eu não conheço ninguém no Rio, mas me apaixonei pela cidade. Tem problema?
Luiza, tremendo, responde:
- Claro que não. Anota aí...
Ele anota e vai embora, ela o acompanha com o olhar até que ele some no meio da multidão...
Eu disse que essa história se passava no Rio? Me enganei! Ela se passa também em São Paulo. Seis horas da tarde, pilhas de papel em cima da mesa, reunião com o chefe em 30 minutos. Se tudo der certo, ele sai às 20:00h hoje. O trânsito ainda continuará caótico. De repente, como um raio, lembra da viagem para o Rio de Janeiro, e fica mais calmo. Interessante que não é a imagem do mar que aparece, nem da enseada de Botafogo, muito menos do Pão de Açúcar. É o rosto de Luiza. Seu sorriso tímido, seus olhos...
- O que ela deve estar fazendo agora? Pensa ele.
Pega então, em sua carteira o papel com aquele telefone e começa a discar. Ela ao está em casa, mas ele deixa recado na secretária eletrônica.
- Não tinha reparado como a voz dela é doce...
E a reunião, e o chefe, e o trânsito nunca foram tão agradáveis como hoje...
Priscilla crê que esse período de tempo que chamamos de vida é uma jornada. Convida a todos a que se juntem em sua viagem, no seu diário de bordo em http://tudoepessoal.blogspot.com/