Categoria: C. S. Lewis

O Purgatório de C.S. Lewis

Trainspotting
Creative Commons Licensephoto credit: photographer padawan *(xava du)

Na visão protestante tradicional, os mortos estão ou condenados ou salvos. Se condenados, orar por eles é inútil. Se salvos. inútil da mesma forma. Deus já fez tudo por eles, o que mais haveríamos de pedir?

Todavia, não cremos nós que Deus já fez e já está fazendo tudo que pode pelos vivos? O que mais haveríamos de pedir? No entanto, é nos mandado pedir.

"Sim", alguém responderá, "contudo os vivos ainda estão na estrada. Ulteriores provações, desenvolvimento, possibilidades de erro aguardam por eles. Os salvos, no entanto, têm sido aperfeiçoados. Terminaram a corrida.3. Orar por eles pressupões que progresso e dificuldade ainda são possíveos. Na verdade, você está introduzindo algo como o Purgatório."

Bem, imagino que esteja. Embora seria de supor até no Céu algum tipo de incremento perpétuo de bem-aventurança, alcançado por meio de uma autorrendição cada vez mais extasiada, sem a possibilidade do fracasso, mas talvez não sem os ardores e esforços que lhe são próprios - pois o deleite também conta com suas dificuldades e escaladas íngremes, como bem sabem os amantes. Mas não vou insistir nessa questão nem tentar fazer conjecturas sobre ele por enquanto. Eu acredito no Purgatório.

Lembre-se, os reformadores4 tiveram bons motivos para lançar dúvidas sobre a "doutrina romana concernente ao Purgatório", considerando em que se transformara essa doutrina na época. Não me refiro ao simples escândalo comercial. Se você se desviar do Purgatório de Dante5 para o século XVI, ficará aterrorizado com a degradação. Em Supplication os Souls [Súplica de Almas], de Thomas More6, o Purgatório nada mais é que um Inferno temporário. Nele as almas são atormentadas pelos demônios, cuja presença é "mais horrível e penosa para nós do que a própria dor. Pior ainda, Fisher, em seu sermão sobre o salmo 6, diz que as torturas são tão intensas a ponto de o espírito que as sofre não ser capaz, por causa da dor, "de lembrar de Deus como deveria fazer". Na verdade, até a etimologia da palavra purgatório já deixou de ser levada em conta. Sua dor não nos traz mais para perto de Deus, mas faz com que o esqueçamos. É um lugar não de purificação, mas de puro castigo retributivo.

A visão correta se opera esplendorosamente para The Dream of Gerontious [O sonho de Gerontio] de Newman8. Ali, se me lembro bem, a alma salva, ao pé do trono, suplica para ser lavada e purificada. Não consegue suportar nem mais um instante as "trevas que afrontam aquela luz"9. A religião tem reclamado o Purgatório.

Nossa alma exige o Purgatório. Seria de cortar o coração se Deus nos dissesse: "É verdade, meu filho, que você está com o hálito forte e que seus trapos pingam lama e lodo, mas somos caridosos aqui, e ninguém o repreenderá por essas coisas, nem se apartará de você. Entre no gozo do teu Senhor"10, não acha? Nós não deveríamos retrucar: "Com submissão, Senhor, e se não houver nenhuma objeção, eu preferiria ser purificado primeiro"? "Pode machucar, você sabe..." "Mesmo assim, Senhor."

Suponho que seja normal o processo de purificação envolver sofrimento. Em parte por tradição; em parte porque a maioria do bem real que me tem sido feito nesta vida o tem envolvido. Mas não entendo que o sofrimento seja o propósito da purgação. Posso bem crer que pessoas nem muito piores nem muito melhores do que eu sofrerão menos ou mais do que eu. "Sem disparates envolvendo mérito." O tratamento dado será o necessário,quer ele machuque muito, quer pouco.

Minha imagem favorita dessa questão vem da cadeira do dentista. Espero que, quando meu dente da vida for arrancado e eu estiver "me recuperando", uma voz diga: "Enxágue a boca com isto aqui". Iso aqui será o Purgatório. O enxágue pode durar mais tempo do que sou capaz de imaginar agora. O gosto desse isto aqui pode ser mais adstringente e ardente do que minha atual sensibilidade é capaz de suportar. Mas More e Fisher não conseguirão me convender de que será odioso e profano.

do livro: Oração, Cartas a Malcolm: Reflexões sobre o diálogo íntimo entre homem e Deus, de C.S. Lewis, lançado pela Editora Vida

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3 2 TImóteo 4.7
4 Homens como Martinho Lutero, João Calvino e William Tyndale - figuras fundamentais da Reforma Protestante. [N. do T.]
5 Parte segunda de A divina comédia, de Dante, precedida pelo Inferno e seguida pelo Paraíso. [N. do T.]
6 Thomas More (1478 - 1535), político e erudito inglês, escreveu este livro em 1529m juntamente com uma série deles, con o intuito de dar uma resposta à visão protestante de Tyndale. [N. do T.]
7 John Fisher (149-1535), bispo e humanista inglês que, ocmo Thomas More, defendi auma reforma da igreja mas se opunha à Reforma Protestante. [N. do T.]
8 The Dream os Gerontious (1866), poema escrito por John Henry Newman (v. nota 6 do cap. 5) [N. do T.]
9 MILTON, John (1608 - 1674). Paraíso Perdido, São Paulo: M. Claret, 2003.
10 Mateus 25.21,23 ARA

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Alguém, uma explicação

Marcando presença na semana C.S. Lewis, um texto de George MacDonald, um dos autores que mais influenciou Jack.

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Se existir um Deus, e eu for sua criatura, pode existir, deveria existir, deve existir alguma comunicação clara entre ele e mim. Se admitimos um Deus, mas cuja bondade mal chega a preocupar-se com suas criaturas, vou concordar com ele que seria insensato orar para tal Deus. Mas a idéia de que, com todos os bons impulsos que há em nós, somos a progênie de um espírito do mal de coração duro é tão horrível na sua inconsistência que perguntaria ao homem que assim pensasse que horrendo e insensível menosprezo pela verdade o torna capaz dessa suposição! A uma pessoa assim os terrores de Deus, ou, se não forem os terrores, então as mágoas de Deus, apesar de tudo, hão de falar. O algo divino que há nele amará, e esse amor ficará gemendo.

Se eu achar que minha condição, minha consciência, é aquela de alguém longe de casa, não, a de alguém detido em alguma espécie de prisão; se eu achar que não posso dominar nem o mundo em que vivo, nem meus pensamentos e desejos; que não posso acalmar minhas paixões, ordenar minhas preferências, determinar meus objetivos, querer meu crescimento, esquecer quanto gostaria de esquecer, ou lembrar-se do que esqueço; que não posso amar o que gostaria de amar, ou odiar o que gostaria de odiar; que não sou o rei de mim mesmo; que não posso suprir minhas necessidades, nem sequer sempre sei quais das minhas aparentes necessidades devem ser supridas e quais tratadas como impostoras; se, numa palavra, o meu ser, em todos os sentidos, é uma carga pesada demais para mim, se eu não posso nem entendê-lo, nem sentir-me satisfeito com ele, nem melhorá-lo, isso não vai provocar uma pausa - a pausa que termina em oração?

Quando meu tamanho parece grande demais para meu controle; quando eu reflito que não sei explicar a minha existência, não tive a menor participação nela, tampouco, caso não goste dela, posso fazer alguma coisa para provocar o seu fim; quando eu penso que nada posso fazer para compensar aqueles que amo, como também nada posso fazer contra aqueles que odeio, por males que lhes fiz e mágoas que lhes causei; que nos meus piores momentos eu deixo de crer no que há de melhor em mim, nos melhores abomino o que tenho de pior; que não há em mim nenhuma integridade, nenhuma unidade; que a vida não é boa pra mim, pois eu me desprezo - quando eu penso que em todas ou algumas dessas coisas, pode parecer estranho se eu também pensar que certamente deve existir nalgum lugar um ser que seja a minha explicação, alguém que se explique a si mesmo e faça o círculo da minha existência exato; alguém cujo ser explique e seja necessário para explicar o meu ser, cuja presença no meu ser seja imperativa, não simplesmente para suplementá-la, mas para tornar a minha existência um bem para mim mesmo?

(George MacDonald, em Sermões não proferidos, citado no livro "A biblioteca de C.S. Lewis", tradução de Almiro Pisetta)

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Lewis e a prática da oração

Ele orava?
O tempo todo.

Fale um pouco sobre isso.
Eu não sei o que ele orava, mas não era difícil pra eu entrar em um aposento e encontrar Jack orando. E eu dizia algo como: "Me desculpe, Jack". E ele diria: "Tudo bem, eu só estava orando". Você sabe, a interrupção não era algo que ele achasse irritante, quando eu entrava e o interrompia em sua oração. Ele orava ao caminhar, orava ao sentar em sua cadeira, orava o dia inteiro. Eu penso que, para um homem como Jack, a oração era mais uma conversa com Cristo do que súplica. Para muitos de nós, quando iniciamos nossas vidas cristãs, a oração é quase sempre uma questão de súplicas. E então, um pouco depois, nos tornamos maduros o suficiente para incluir algum agradecimento e algum louvor em nossa vida de oração. Eu penso que no final das contas deveríamos atingir um estado onde a oração é uma conversa com Cristo, que inclui ação de graças, e também louvor e súplica.

http://www.duncanentertainment.com/interview_gresham.php

Douglas Gresham, em entrevista para o documentário The Magic Never Ends - The Life & Work of C. S. Lewis, em setembro de 2000.

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Personalidade

No começo eu disse que há Personalidades em Deus. Agora vou mais longe e afirmo que em nenhum outro lugar há personalidades verdadeiras. Você não terá um eu verdadeiro enquanto não entregar a ele o seu eu. A igualdade ou semelhança existe sobretudo entre os mais "naturais" dos homens, não entre os que se rendem a Cristo. Quão monótona é a semelhança que iguala to­dos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a diferença dos santos! (C.S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples)

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