Categorias: Reflexão, Desabafos, Livros, Perguntas Difíceis ..., Pessoas Incomuns, Textos Riscados

"Mas os covardes, os incrédulos, os depravados, os assassinos, os que cometem imoralidade sexual, os que praticam feitiçaria, os idólatras e todos os mentirosos — o lugar deles será no lago de fogo que arde com enxofre. Esta é a segunda morte." (Apocalipse 21:8 NVI)

A maioria dos evangélicos ficaria extremamente ofendida em ser incluída em qualquer uma dessas categorias. Não somos idólatras, não praticamos feitiçaria, não mentimos, não matamos, somos corajosos e com certeza não somos depravados. Será?

Entre nós, muitas vezes é comum dizer: "Eu tomei essa decisão porque Deus disse pra fazer isso" ou "Eu deixei de fazer isso porque Deus quis". O curioso é que, às vezes, Deus 'manda' fazer na segunda-feira, mas 'manda' desfazer na terça. O duro nisso tudo é ver pessoas atribuírem a Deus os seus próprios desejos e vontades, porque não têm coragem o suficiente para dizer "Fi-lo porque qui-lo". E, na falta de coragem de assumir nossas próprias decisões, Deus vira mera desculpa, quase padrão para nossas decisões, que muitas vezes nada têm a ver com Ele.

A covardia muitas vezes se faz presente nos shows ditos evangelísticos. Como em muitos meios, música se tornou uma neurose gospel e, como para muitos, música não pode ser outra coisa senão adoração, adiciona-se o adjetivo 'evangelístico' como forma de justificar nossas incoerências. Não se tem coragem de admitir que se quer estar ali para curtir o som, os artistas, as performances, o clima. Porque tudo isso foi tornado profano nas mentes, mas muitas vezes o coração não concorda, o adjetivo evangelístico suaviza e relativiza as coisas.

Não me entendam mal: não estou dizendo que Deus não nos orienta em nossas decisões - até mesmo porque essa afirmação seria incoerente com a minha crença - ou que seja impossível haver shows evangelísticos. Se tem uma coisa a respeito da qual os evangelhos são claros é quanto à ambiguidade do homem, e tudo isso nos perseguirá enquanto vivermos nesta terra. O que eu tenho tentado praticar para mim, e acho que seria muito saudável para todos, é dar o nome correto aos bois.

Tenhamos coragem de admitir nossas vontades, nossas falhas, nossos desejos. Nossa autonomia para escolher. Sejamos honestos conosco e com o outro. Sem o medo de 'parecermos' imperfeitos. Até mesmo porque é o que já somos, independentemente do que façamos ou não sob a orientação divina.

"Ao ouvirem isso, os discípulos ficaram perplexos e perguntaram: 'Neste caso, quem pode ser salvo?' Jesus olhou para eles e respondeu: 'Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis'." (Mateus 19:25, 26 NVI)

Esse texto contou com um tempero especial de Aline Menezes.

Walter Cruz
31/12/2008

Ortodoxia

Esse post está pronto desde o dia 25 de outubro, mas por alguma razão misteriosa não tinha sido publicado. Será meu último post desse ano! Um bom ano a todos, tudo de bom sempre!
25 de Outubro de 2008 por Walter Cruz photo of 'Ortodoxia'
★★★★★

Comemorando os 100 anos de lançamento do livro Ortodoxia, de Gilbert Keith Chesterton, a editora Mundo Cristão lançou uma nova edição do livro. Com tradução de Almiro Pisetta, e lançado a um preço razoavelmente popular (cerca de 20 reais), é uma excelente oportunidade para que esse autor seja (re)apresentado à geração atual.

A propósito, não é a primeira vez que leio Ortodoxia. Uns três anos atrás, li a versão da Ltr Editora. E sempre é uma aventura e um prazer mergulhar no fino humor desse jornalista, mais conhecido no Brasil pela série Padre Brown, o padre detevive protagonista de seus romances policiais. Seu livro The Everlasting Man foi de grande influência na conversão de C.S. Lewis, que escreveu numa carta certa vez: "a melhor defesa popular da posição cristã plena que eu conheço é o The Everlasting Man, de G. K. Chesterton". Uma prova de sua perspicácia está no seguinte fato: quando o jornal London Times pediu a alguns escritores que respondessem à pergunta “O que há de errado com o mundo?”, Chesterton enviou a seguinte resposta:
      Prezados Senhores:
      Eu.
      Atenciosamente,
      G. K. Chesterton

Ortodoxia, segundo ele próprio, é sua 'autobriografia deconjuntada'. É sua defesa daquilo que ele chama de teologia cristã central, que para ele estava resumida no Credo dos Apóstolos. Segundo Chesterton, a real ortodoxia não é o equilíbrio amorfo entre duas opniões contrárias - é acatar a verdade junto com a contradição, o paradoxo. Não é lançar-se num racionalismo louco, mas dar espaço correto à imaginação também. É reconhecer que o mundo não é simples, que existem ambiguidades e que essas ambiguidades, segundo ele, são apenas entendidas como paradoxo, à luz do cristianismo. Não basta amar o mundo, é preciso odiar o estado das coisas como são para se esforçar em mudá-lo. E mudança por mudança não é a solução, é preciso amor para mudar também. Esse é um dos muitos paradoxos sugeridos pelo livro.

Bernard Shaw e H. G. Wells, dois escritores dos quais Chesterton discordava abertamente, sempre eram convidados a escrever no semanário que ele editava, o G.K.'s Weekly. A ortodoxia para Chesterton e na vida de Chesterton não é beligerante, é acolhedora e bem humorada. Talvez, nos dias de hoje, o que mais esteja em falta entre nós cristãos seja essa genuína ortodoxia.

O cristianismo veio ao mundo acima de tudo para afirmar com veemência que o homem não só não devia olhar para dentro, mas devia olhar para fora, contemplar com assombro e entusiasmo uma companhia divina e um capitão divino. O único prazer de ser cristão era que o homem não ficava sozinho com a Luz Interior, mas definitivamente reconhecia uma luz exterior, bela como o sol, clara como a lua, formidável como um exército com bandeiras.

Eu sou o homem que com a máxima ousadia descobriu o que já fora descoberto antes.(...)Forcei minha voz com penoso exagero juvenil ao proferir minhas verdades. E fui punido da maneira mais adequada e engraçada, pois mantive as verdades: mas descobri, não que não eram verdades, mas simplesmente que não eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho encontrei-me de fato na ridícula posição de receber o apoio de toda a cristandade. Deus me perdoe, mas talvez eu tenha tentado ser original; mas só consegui inventar por minha própria iniciativa uma cópia inferior das tradições existentes da religião civilizada. O navegador pensou ser o primeiro a descobrir a Inglaterra; eu julguei ser o primeiro a descobrir a Europa. Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia.

http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11403
http://en.wikipedia.org/wiki/G._K._Chesterton
http://pt.wikipedia.org/wiki/G._K._Chesterton

This hReview brought to you by the hReview Creator.

Walter Cruz
29/10/2008

Sob o feitiço das boas intenções

por Sören Kierkegaard
tradução Walter Cruz

Existe uma parábola nas Escrituras sobre a qual raramente refletimos, embora seja instrutiva e inspiradora. "Havia um homem que tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na vinha’. E este respondeu: ‘Não quero!’ Mas depois mudou de idéia e foi. O pai chegou ao outro filho e disse a mesma coisa. Ele respondeu: ‘Sim, senhor!’ Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?" (Mt. 21:28-31 - NVI). Poderíamos perguntar de outra forma: qual dos dois foi o filho pródigo? Pergunto-me se não foi o que disse "Sim," aquele que não somente disse "Sim," mas disse, "Sim, senhor!," como se mostrasse submissão incondicional e obediente à vontade do pai.

Qual é a lição dessa parábola? Não seria nos mostrar o perigo de dizer "Sim" sem reflexão, ainda que bem intencionado? Mesmo que o irmão-sim não tivesse intenção de enganar ao dizer "Sim", ele se tornou um embusteiro ao falhar em cumprir sua promessa. Na sua pressa em prometer, ele se tornou um enganador. Quando você diz "Sim" ou promete algo, você pode facilmente enganar a si mesmo e a outros, como se você já tivesse feito o prometido. É fácil pensar que, ao fazer uma promessa, você já tenha feito ao menos parte do que prometeu, como se a promessa em si tivesse algum valor. Nada disso! De fato, quando você não cumpre o que promete, tem um longo caminho de volta à verdade.

Cuidado! O "Sim" da promessa induz ao sono. Um "Não" honesto possui em si muito mais promessa. Ele pode estimular; e o arrependimento pode não estar tão longe. Aquele que diz "Não" passa a quase temer a si mesmo. Mas aquele que diz "Sim, eu vou" está muito satisfeito consigo mesmo. O mundo é muito inclinado - até mesmo ansioso - em fazer promessas, porque uma promessa parece muito boa no início - ela inspira! Por essa mesma razão, a eternidade suspeita de promessas.

Agora, suponha que nenhum dos dois irmãos tenha feito a vontade do pai. Então, aquele que disse "Não" estava certamente mais perto de perceber que ele não fez a vontade do pai. Um "Não" não esconde nada, mas um "Sim" pode facilmente se transformar num engodo, num auto-engano; que de todas as barreiras, é a mais difícil de superar. Ah, é verdadeiro também que "De boas intenções o inferno está cheio."

A coisa mais perigosa para uma pessoa é começar a andar pra trás, com a ajuda das boas intenções, especialmente com a ajuda das promessas; pois é quase impossível descobrir que alguém está realmente andando pra trás. Quando uma pessoa dá as costas para alguém e se vai, é fácil perceber qual caminho ela está tomando. Não é assim? Mas quando uma pessoa acha um modo de olhar na direção daquele de quem ele se afasta, e ao fazer isso anda de costas, enquanto aparenta cumprimentar aquele de quem ela se afasta, dando mais e mais garantias de que está vindo, ou falando incessantemente "Aqui estou" - mesmo que ele se afaste cada vez mais andando de costas - então não é tão fácil perceber. Acontece assim com aquele que, cheio de boas intenções e rápido em prometer, afasta-se cada vez mais do bem. Com a ajuda de intenções e promessas, ele mantém a impressão honesta de que ele está se movendo na direção do bem, mesmo que, enquanto isso, afaste-se cada vez mais dele. Com cada intenção e promessa renovadas, ele parece dar um passo pra frente, mas na realidade ele está apenas parado, ou ainda pior: está dando um passo para trás.

A boa intenção, o "Sim" dito em vão, a promessa não cumprida deixa um resíduo de desespero, de desânimo. Cuidado! Boas intenções podem irromper em mais declarações apaixonadas de intenções, mas somente para deixar para trás maior desespero. Como um alcóolatra requer constantemente uma dose mais forte, aquele que caiu no feitiço das boas intenções e na declaração constante de lisonjas requer cada vez mais boas intenções. Assim, ele não vê que está caminhando para trás.

Não louvamos o filho que disse "Não", mas aprendemos no Evangelho como é perigoso dizer "Sim, senhor!". Uma promessa relacionada a uma ação é de alguma forma semelhante a um changeling1 (uma criança secretamente trocada por outra) - precisamos vigiar constantemente. No momento em que a criança nasce, a alegria da mãe é maior, porque sua dor se foi. Quando, por causa de sua alegria, ela está menos vigilante - assim diz a superstição - poderes malignos vêm e colocam um changeling no lugar da criança. No momento inicial crucial quando uma jornada começa, forças inimigas introduzem um changeling na forma de uma promessa, assim nos furtando de fazer um início genuíno. Infelizmente, quantos têm sido enganados dessa maneira, sim, como se colocados sob um feitiço!

1. Sobre o changeling: http://diariodeumpsicoterapeuta.wordpress.com/2007/12/08/crianas-roubadas/

Tradução de um capítulo de Provocations, que pode ser obtido em http://www.plough.com/ebooks/Provocations.html

Walter Cruz
22/10/2008

Escolhendo fazer o mal

Se você tivesse em seu poder a cura para uma doença até então incurável, você guardaria segredo pra si, se soubesse que, divulgando-a, a pessoa que você mais odeia pudesse beneficiar-se dessa cura? Se a sua própria existência fizesse bem a quem lhe faz mal, a quem lhe aborrece, você pensaria em tirar a sua própria vida para que essa pessoa não possa beneficiar-se - nem de forma indireta - do bem que você pudesse lhe causar por apenas existir?

Jonas, o profeta, era uma pessoa assim. Chamado para pregar uma mensagem de arrependimento para o povo de Nínive, ele não o fez por ter medo da bondade e misericórdia de Deus. De fato, o seu pensamento era o de que eles não mereciam nenhuma chance de vida, nem que pra isso ele mesmo tivesse de chegar à morte. E o profeta empreende uma maratona suicida. Em meio à tempestade no mar, onde o navio em que ele tinha embarcado estava prestes a afundar, ele dorme. Quando os homens clamavam cada um de sua forma pelas suas vidas, Jonas aguarda silenciosamente a morte. Quando descobrem que ele é a causa, ele escolhe 'voluntariamente' ser jogado no mar.

Se a sua morte pudesse fazer mal a quem ele detestava, porque não provocá-la ele mesmo? Ele apenas não tinha coragem de cometer o suicídio, mas não haveria problema pra ele se uma bala perdida o acertasse. Mesmo tendo o seu plano frustrado por Deus, que lhe enviou um grande peixe para que o engolisse, ele apenas pede ajuda a Deus no terceiro dia. Finalmente, por falta de opção, Jonas dá o braço a torcer. E, para seu desespero, os ninivitas se arrependem. Mas ele é resistente. Fez acampamento perto da cidade. Uma espécie de torcida satânica, esperando que de alguma forma o mal acontecesse a todas aquelas pessoas. Para desespero de Jonas, nada acontece.

Essa é resumidamente a história descrita no pequeno livro de Jonas, cujos quatro capítulos podem ser lidos em poucos minutos. As razões para esse ódio de Jonas não estão descritas. Talvez tenha começado porque ele achava que o povo judeu tivesse direitos e, de alguma forma, os ninivitas estivessem negando esse direito. Pra falar a verdade, não importa quais eram as razões, pois, segundo o próprio Deus afirma, não eram razoáveis, e naquele momento, elas falavam mais a respeito do próprio Jonas que de qualquer um. O fato é que ele estava disposto a morrer para que o mal acontecesse aos ninivitas. Algo como o avesso da redenção. Jonas estava disposto a ser o satanás de seus inimigos! Jonas preferiria amputar-se a ter de andar uma única milha com seus inimigos!

Não será essa a nossa condição? Cheios de razões, cínicos e perversos, não nos importamos que o mal nos aconteça para que a pessoa a quem aborrecemos leve a pior. Escolhemos causar o mal a outros, mesmo que nos custe a honra, os bagos, a vida. Embarcamos em missões suicidas. Somos os kamikazes de nossos próprios umbigos. Que Aquele que pode dormir em meio às tempestades, por ter o poder de acalmá-las, possa livrar-nos desse mal!

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 ... 23 >>