Categoria: Desabafos
Palavras apenas
Julho 27th, 2010 / Enviar feedback » / por Walter Cruz

photo credit: Markus Rödder
Desde cedo, tenho um gosto pela escrita, pelo sentido das palavras, pela lingüística. Um dos meus heróis favoritos é Dr. Ransom, um filólogo. Conheci-o através do livro "Longe do Planeta Silencioso"1, de C. S. Lewis, que encontrei, num sebo em Brasília. O momento em que ele traduz as más intenções de seus raptores para a língua de Malacandra é emocionante.
Há algo divino nas palavras. Isaías 5:20 declara: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que põem as trevas por luz, e a luz por trevas, e o amargo por doce, e o doce por amargo!". Trocar o sentido das palavras é algo sério. Ainda segundo a Bíblia, a primeira demonstração da capacidade criativa do homem se deu por meio de palavras - dando nome aos animais na terra.
Gosto de palavras. Gosto dos significados das palavras. Gosto das sonaridades das palavras, mesmo quando não sei seus significados.
João diz que no princípio era a Palavra e a Palavra se fez carne. Assim, creio que Deus está muito próximo dos poetas e daqueles que se divertem com as palavras, sejam eles religiosos ou não.
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1.Segundo o site www.malacandra.co.uk/site1/index.php/Out_of_the_Silent_Planet, o romance foi escrito como um acordo entre C.S. Lewis e J.R. Tolkien, segundo o qual Lewis escreveria uma viagem espacial e Tolkien uma viagem no tempo.
Encontrei esse texto no Google Docs, que eu as vezes uso pra rascunhar e compartilhar previamente com alguem os textos que escrevo aqui. A data do documento lá é de 21 de dezembro de 2006, e aparentemente eu nunca o publiquei aqui. Não está perfeito, nem o revisei muito. Vai como está, enquanto eu ouço 'Nada será como antes', do Milton Nascimento
Fatos irrelevantes sobre mim
Abril 21st, 2010 / 3 feedbacks » / por Walter Cruz
Imitando o Thiaguinho:
- Sou tímido.
- Meu pecado capital favorito é a preguiça.
- Toco teclado bem, violão quase bem, aprenderei ainda contrabaixo e bateria nessa existência
- Não sei assoviar.
- Eu falo muito pouco.
- Eu penso muito antes de falar.
- Eu gosto de coisas muito diversas em música, melhor ver meu last.fm.
- Dentre as coisas diversas, as que eu mais gosto são Dave Mattews Band, Coldplay e Milton Nascimento.
- Minha risada é estranha e alta.
- Gosto de cinema.
- Sou desorganizado.
- Sou levemente misantropo.
- Não acho que sofra de alexitimia. Posso estar enganado.
- Tenho medo de agulhas.
- Por causa disso não sei meu tipo de sangue.
- Tenho poucos amigos.
- Meus poucos amigos me dizem que sou estranho.
- Eles continuam meus amigos mesmo assim.
- Eu bebo cerveja.
- Mesmo bebendo cerveja eu ainda falo muito pouco.
- Embora eu seja tímido, não me constranjo em pagar micos. Paradoxo.
- As crianças gostam de mim por alguma razão que não consigo explicar.
- Ultimamente eu ando ouvindo Daft Punk sem parar.
- Eu uso boné atualmente, não usava 5 anos atrás.
- Gosto de São Paulo
- Gosto de Brasília.
- Mesmo quando eu perco um amigo, eu mantenho a esperança de que a vida irá me trazê-lo de volta de algum modo.
- Sou pessimista e otimista ao mesmo tempo. Gosto de ser o imponderável.
- Não voto.
- Gosto do Jacques Ellul, de Caio Fábio, do Kierkegaard e do C.S. Lewis.
- Não gosto de fazer listas de coisas.
- Eu já pensei em me matar.
Humáquina
Março 27th, 2010 / 1 Feedback » / por Walter Cruz
Exceto por reuniões, seminários e apresentações, não tinha realmente falado com ninguém nos últimos meses. Assistia o corre-corre de dentro do seu cubículo. Um ano na cidade grande e ainda não tinha um amigo sequer.
Saiu para comprar seu jantar. Novamente sanduíche. Novamente no mesmo lugar. O mesmo pedido. A mesma angústia: a de sentir-se cada dia menos humano.
O passo apressado na volta pra casa. Sentia-se só, mesmo tendo telefonado para diversas pessoas e tendo participado de três ou quatro reuniões naquele dia. O seu cérebro já nem as contava mais, ia para elas como um rôbo programado para isso. A cada dia sentia-se menos humano.
Teve uma idéia: pediria um abraço pra primeira pessoa que encontrasse no caminho. Talvez o inusitado fizesse com que a idéia desse certo. Não tinha nada a perder mesmo.
- Me dá um abraço?
A mulher desconfiada olhava para ele. Nada respondeu durante segundos. Seria ela surda? Nesse ano na cidade grande tinha aprendido uma coisa: as pessoas não querem ouvir, e por isso mesmo, não ouvem. Já que estava no meio da execução daquela péssima idéia, achou por bem ir até o final.
- Me dá um abraço?
Mais silêncio. Deus do céu, a mulher tremia. A barba dele estava mal-feita, como de costume, os cabelos meio desgrenhados, mas estava apresentável. Ao menos era o que supunha. Aquela era mesmo uma idéia muito ruim.
- Moço, eu tenho que correr para pegar o meu ônibus que eu estou atrasada!
Com a resposta, ela saiu correndo, atravessando a rua sem olhar para nenhum lado.
Idéia estúpida.
Atravessou a rua sem paixão. Já que o dia era das idéias estúpidas, teve uma pior que aquela: decidiria no cara ou coroa se daria fim a própria vida.
Chaves, celular, algum panfleto idiota de algo que ele não iria nunca comprar, pendrive, cabo USB, um número de telefone anotado num post-it amassado, a segunda via do recibo do cartão de crédito daquele hamburguer que ele iria comer mais por obrigação do que por fome ou até mesmo a simples vontade de comer.
Não tinha uma única moeda no bolso. Odiou-se por isso.
Jogou o sanduíche no chão. Esmurrou a parede mais próxima até ver o sangue jorrar de sua mão esfolada.
De repente, sentiu-se humano mais uma vez.
O estranho
Março 26th, 2010 / 1 Feedback » / por Walter Cruz
O estranho abordou a moça quase que na esquina da avenida. Os passos rápidos dela, que andava sempre ressabiada durante a noite foram interrompidos de súbito pelo sujeito que parecia-lhe brotar do chão.
- Me dá um abraço?
A pergunta foi tão descabida que ela ouviu, mas não quis acreditar no que ouviu. O normal seria ele ter perguntado as horas, ter perguntado se algum ônibus passava por ali, ter perguntado onde era a farmácia. Ela ficou sem reação.
- Me dá um abraço?
Agora ela se viu obrigada não apenas a ouvir, mas a entender. O que a deixou ainda mais apavorada: o que raios um estranho lhe faria pedindo um abraço naquela esquina, naquela hora? Instintivamente o braço segurou a bolsa com mais força. Fosse um dia de chuva, ela teria aquele guarda-chuva imenso na mão, mas para seu azar, era uma noite clara.
- Moço, eu tenho que correr para pegar o meu ônibus que eu estou atrasada!
E assim, sem mais delongas, passou rispidamente pelo sujeito, e apertou o passo. Quase corria, sem olhar pra trás.
Pensou naquele sujeito mais de uma vez nos dias que se seguiram. Não parecia um homem mal, não era um mendigo, não estava vestido de forma chique, mas estava apresentável. Trazia nas mãos algo que ela ficou em dúvida se eram compras ou um lanche, não parecia estar bêbado, nem drogado. Porque raios ele queria um abraço? Tivesse pedido um trocado ela teria dado alguma moeda que achasse na bolsa.
Pensou naquele sujeito... Até que a correria dos dias fez com que sua recordação ficasse cada vez mais vaga, até que sumiu, como se fosse uma neblina que dá lugar a um dia ensolarado.





