Categoria: Livros

Walter Cruz
31/12/2008

Ortodoxia

Esse post está pronto desde o dia 25 de outubro, mas por alguma razão misteriosa não tinha sido publicado. Será meu último post desse ano! Um bom ano a todos, tudo de bom sempre!
25 de Outubro de 2008 por Walter Cruz photo of 'Ortodoxia'
★★★★★

Comemorando os 100 anos de lançamento do livro Ortodoxia, de Gilbert Keith Chesterton, a editora Mundo Cristão lançou uma nova edição do livro. Com tradução de Almiro Pisetta, e lançado a um preço razoavelmente popular (cerca de 20 reais), é uma excelente oportunidade para que esse autor seja (re)apresentado à geração atual.

A propósito, não é a primeira vez que leio Ortodoxia. Uns três anos atrás, li a versão da Ltr Editora. E sempre é uma aventura e um prazer mergulhar no fino humor desse jornalista, mais conhecido no Brasil pela série Padre Brown, o padre detevive protagonista de seus romances policiais. Seu livro The Everlasting Man foi de grande influência na conversão de C.S. Lewis, que escreveu numa carta certa vez: "a melhor defesa popular da posição cristã plena que eu conheço é o The Everlasting Man, de G. K. Chesterton". Uma prova de sua perspicácia está no seguinte fato: quando o jornal London Times pediu a alguns escritores que respondessem à pergunta “O que há de errado com o mundo?”, Chesterton enviou a seguinte resposta:
      Prezados Senhores:
      Eu.
      Atenciosamente,
      G. K. Chesterton

Ortodoxia, segundo ele próprio, é sua 'autobriografia deconjuntada'. É sua defesa daquilo que ele chama de teologia cristã central, que para ele estava resumida no Credo dos Apóstolos. Segundo Chesterton, a real ortodoxia não é o equilíbrio amorfo entre duas opniões contrárias - é acatar a verdade junto com a contradição, o paradoxo. Não é lançar-se num racionalismo louco, mas dar espaço correto à imaginação também. É reconhecer que o mundo não é simples, que existem ambiguidades e que essas ambiguidades, segundo ele, são apenas entendidas como paradoxo, à luz do cristianismo. Não basta amar o mundo, é preciso odiar o estado das coisas como são para se esforçar em mudá-lo. E mudança por mudança não é a solução, é preciso amor para mudar também. Esse é um dos muitos paradoxos sugeridos pelo livro.

Bernard Shaw e H. G. Wells, dois escritores dos quais Chesterton discordava abertamente, sempre eram convidados a escrever no semanário que ele editava, o G.K.'s Weekly. A ortodoxia para Chesterton e na vida de Chesterton não é beligerante, é acolhedora e bem humorada. Talvez, nos dias de hoje, o que mais esteja em falta entre nós cristãos seja essa genuína ortodoxia.

O cristianismo veio ao mundo acima de tudo para afirmar com veemência que o homem não só não devia olhar para dentro, mas devia olhar para fora, contemplar com assombro e entusiasmo uma companhia divina e um capitão divino. O único prazer de ser cristão era que o homem não ficava sozinho com a Luz Interior, mas definitivamente reconhecia uma luz exterior, bela como o sol, clara como a lua, formidável como um exército com bandeiras.

Eu sou o homem que com a máxima ousadia descobriu o que já fora descoberto antes.(...)Forcei minha voz com penoso exagero juvenil ao proferir minhas verdades. E fui punido da maneira mais adequada e engraçada, pois mantive as verdades: mas descobri, não que não eram verdades, mas simplesmente que não eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho encontrei-me de fato na ridícula posição de receber o apoio de toda a cristandade. Deus me perdoe, mas talvez eu tenha tentado ser original; mas só consegui inventar por minha própria iniciativa uma cópia inferior das tradições existentes da religião civilizada. O navegador pensou ser o primeiro a descobrir a Inglaterra; eu julguei ser o primeiro a descobrir a Europa. Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia.

http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11403
http://en.wikipedia.org/wiki/G._K._Chesterton
http://pt.wikipedia.org/wiki/G._K._Chesterton

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Walter Cruz
08/08/2007

O culto da emoção

8 de Agosto de 2007 por

Walter Cruz


photo of 'O culto da Emoção'

★★★★☆

No início de 2007, comprei em um sebo o livro "O culto da emoção", do filósofo francês Michel Lacroix. No livro, o filósofo argumenta sobre a existência de dois tipos de emoção: a emoção-choque e a emoção-contemplação. O segundo tipo de emoção é simbolizado por alguém que se emociona com um pôr-do-sol, ao ouvir uma música agravável, ao admirar uma pintura. Já o primeiro, é a emoção tipificada pela catarse coletiva, por um show pirotécnico de rock (ou qualquer show onde o foco não seja ouvir, mas sentir). O símbolo da emoção-choque é o grito, da emoção-contemplação é o suspiro. A partir dessas premissas, o autor faz o seguinte questionamento: "o indivíduo moderno emociona-se muito, mas será que sabe sentir?".

O livro mostra como, durante muito tempo, a emoção foi relegada a uma segunda categoria, e como, no último século, ela foi conquistando um lugar maior dentro da sociedade. Mas, nessa busca por libertação das emoções, temos caído em outro extremo, o das emoções-choque. O homem ideal de nossa época já não seria mais o homo sapiens, mas, sim, o homo sentiens. Sua terapia não é verbal, mas não-verbal: grito primal, o renascimento e outras (terapias alternativas com um apelo mais direto à emoção). Se possível, ele viaja o mundo, não para conhecê-lo, mas para arrancar dele a maior quantidade de adrenalina possível. Seu modelo é o xamã: o sacerdote feiticeiro que em cerimônias sagradas usa a dança, tambores e drogas para entrar em estados alterados de consciência, e que é o curandeiro da tribo. Esse é outro paralelo que o autor traça: embora envolvidos em raves e superestimulados, as pessoas de hoje sentem uma compulsão por tornar o mundo um lugar melhor.

Uma coisa que achei um pouco chata no livro foi que ele reserva um enorme espaço para os sintomas do problema e o problema, mas pouco para as possíveis soluções. Mas quais seriam elas? Um retorno às emoções simples, um mergulho dentro de si mesmo, uma rejeição à super-excitação que toma conta de nossa sociedade hoje em dia. Se tem alguma coisa que depõe contra esse ensaio do filósofo francês, é o pequeno espaço dedicado às soluções. Outro pequeno contra é que os exemplos todos são um pouco franceses (ou europeus) demais, mas é inegável que a situação descrita nesse livro é de certa forma universal.

Walter Cruz
29/01/2007

Contracultura ou Subcultura?

Se o U2 freqüentasse uma igreja nos Estados Unidos ou a 100 quilômetros ao norte de Dublin [uma região predominantemente protestante], na Irlanda do Norte, seria fácil ter sido sugado por uma subcultura cristã. Muitas bandas em situação semelhante são desencorajadas a tocar em espaços seculares, como bares ou clubes, porque cristãos não deveriam estar em lugares assim. A teoria é a de que você não deveria levar Jesus em lugares freqüentemente chamados de “antros de iniqüidade”. A única razão aceitável para freqüentar estes lugares seria a de ir para evangelizar os perdidos que vão ali.

Como conseqüência desta mentalidade, muitos músicos talentosos são introduzidos no cenário gospel, indo de igreja em igreja,cantando canções previsíveis, de conteúdo limitado. A platéia, que é quase que exclusivamente composta por cristãos e que em sua maioria já aceitou as crenças pregadas do palco, acaba não tirando proveito dos clichês. Uma indústria cristã segura, de gueto, é criada com pop stars e gravadoras. Há uma revista, a “Contemporary Christian Music - CCM”, que se tornou o selo de toda a indústria - uma indústria sempre exposta ao risco de acabar se tornando culturalmente irrelevante. Quando Jesus disse a seus discípulos que eles eram a luz do mundo (Mateus 5.14), como queria que eles brilhassem? Como raios de luz que fazem a luz brilhar cegamente sobre si mesma, ou como fachos de luz de vidas alternativas e radicais que cruzam a escuridão? Você culpa a escuridão por ser escura, ou a luz por não brilhar?

(Walk On - A jornada espiritual do U2, de Steve Stockman)

Steve Stockman é ministro presbiteriano na Irlanda, onde trabalha na capelania de Queen's University, em Belfast. Conferencista, possui um programa de rádio na BBC Radio Ulster. Tem utilizado o trabalho da banda U2 em seus semões e palestras por mais de 20 anos.

Você pode ver mais sobre o livro em http://www.w4editora.com.br/walkon.html

Walter Cruz
25/05/2006

Da Vinci

Basta entrar em qualquer livraria para ver uma seção inteira dedicada a ele. É o próprio livro reeditado, são outros livros do autor, alguns que se propõem a `desmascará-lo´, e outros tantos que o analisam. E, é claro, a indústria do cinema não deixa fenômenos como esse passarem em branco. Sendo assim, ontem entrei numa sala lotada para ver O Código Da Vinci. Tão lotada que nós sentamos no chão. Mas, valeu a pena!

Não saí do cinema com minha convicção nem um pouco abalada, e não consigo entender por que alguém sairia. Isso porque, como aprendemos nas aulas de teologia "Jesus foi 100% homem e 100% Deus" (e não de natureza amalgamada, 50% cada coisa, como ensinam os da Igreja Local). Quem conhece os evangelhos, e percebe a coerência dos textos, sabe do que estou falando. Quem leu algum livro da coleção do dr. Augusto Cury também sabe disso. Logo, não há nenhuma novidade em dizer que Jesus foi 100% homem.

O FILME

Não li o livro, mas o filme é ótimo. É uma combinação de duas coisas que fazem muito sucesso: teoria de conspiração e religião. (Para mim, tem ainda a parte matemática e criptográfica. Se eu disser que estávamos (eu, Nina e Cecília) falando de Fibonacci segunda pela manhã, sem que soubéssemos do filme, ninguém acreditaria).

Não faltam cenas de ação, perseguições sem fim, escapadas por um triz, uma ótima fotografia e investigação. Quem for ao cinema terá um ótimo entretenimento. A Wikipedia aponta até mesmo que o herói da trama tem características bem parecidas com Indiana Jones. Já dá pra imaginar, não?

O curioso é que tantas pessoas torcem o nariz para o estudo da história, no entanto, a sessão estava tão lotada num filme que tratava, principalmente, de história! A página da Wikipedia sobre o livro diz o seguinte: "Apesar de o livro afirmar que todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos e rituais secretos lá contidas seriam apuradas, argumenta-se que muito do que Brown escreveu é factualmente impreciso. O livro tem recebido críticas de historiadores, argumentando que Brown distorceu (e em muitos casos até forjou) os fatos históricos. Há também críticas de estudiosos da História da arte, reclamando de pesquisa mal-feita.". Será que o fato de as pessoas desconhecerem a história faz cada um levar a sério essa "estória"? É apenas um palpite.

O filme joga com velhas histórias - Jesus não era Deus, mas foi promovido a Deus pelos seus seguidores; a Bíblia é forjada por Constantino; Jesus foi casado com Maria Madalena, e outras coisas mais. Para todas essas afirmações, existem argumentos tão antigos quanto.

PESQUISA

Como fonte de pesquisa sobre esses assuntos, sugiro o livro "Em defesa de Cristo", do jornalista Lee Strobel. Há também outro aspecto - o 'do sagrado feminino'. Quem está de fato de coração aberto, sabe que Deus é Pai, e também é Mãe. Deus criou homem e mulher a sua imagem e semelhança. Não diz o versículo que 'se teu pai e tua mãe te abandonarem o Senhor te acolherá'? Há referências a esses aspectos nos livros de Leonardo Boff e Rubem Alves.

ALARME

Mudando de canal na TV de casa nos últimos dias, passei por dois programas da Canção Nova (emissora de televisão da Renovação Católica Carismática), em que padres debatiam o filme. Acho que tal alarmismo ocorre porque mais pessoas se dispõem a assistir a um filme do que a ler o grosso volume.

Há muito alarde da Igreja Católica em relação ao Código Da Vinci (até porque ela é desenhada como uma entidade maligna). Mas, para resumir, o filme é ótimo. Estamos até pensando em comprar o livro.

Colaboração: Aline Menezes

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