Muito Mais
Dezembro 25th, 2004 / / por Walter Cruz
Morrer. Enquanto piso com meus pés, e afogo-me na idéia, morrer. Não me assusta. Mudança já, eu que não era. Eu poderia partir e tudo estaria bem, penso, sentando-me, o clima gostoso do parque, a atmosfera tão doce, o ar carregado de maçãs, pêras, pêssegos levitando. Posso olhar em torno, enxergando coisas, como se estendesse a mão e pegasse: bom. Apóio o queixo na mão, admirando mães e babás com crianças que correm em volta. Eu poderia partir e isto não me assusta. Que engraçado.
O que eu acho (os pensamentos em mim ora detendo-se quando meus olhos fitam rostinhos róseos, faces sorridentes, e eles seguem depois, continuando sua caminhada) é que a vida é muito mais - muito mais. Não tendo parâmetros, tenho a fé. A vida em sua variedade, caleidoscópica, e não limitada a isto: meus olhos sobre rostos, sobre cenas, sobre pequeninas alegrias ou dores, instantâneos, e em outros momentos não é diferente. Não subestimo a vida, ou a condeno. Mas a vida é - estaco, definir como, que palavras, elas já foram abusadas de todas as formas - maior, maior. Ela é maior e eu não sei a quê isto me leva. Há porém uma excitação me percorrendo, plena em mim, a arder o tempo todo, ainda que às vezes obscurecida-abafada por ruídos, dramas, preocupações, sensações externas: e depois. E depois. Quero o depois, ainda que não saiba o que é. O depois me fascina.
Eu - eu achava esquisito, incompreensível em Zina isto, este viver mais do lado de lá do que do de cá, eu não vivo assim, é certo, mas volta-me, e me lembro saudavelmente: isto não termina aqui. Há muito mais, muito mais que eu não sei. É difícil pôr isto em blocos arrumados, discerníveis. Enquanto eu não sentia eu não soube.
Zina com seus óculos, o sorriso triste-doce, "eu vivo mais do lado de lá", eu não compreendia. O alicerce da sua fé é totalmente diferente do meu, mas igual nisto: não temos fim. E não o dizemos em lições habilmente decoradas, recitando nossos credos. Ela sabe. Eu sei. Isso existe, e é tão maior. Inclino a cabeça, admirando criancinhas bem pequenas dando os seus (possivelmente) primeiros passos. A aventura. E o que ela vai descobrir depois, tanto - e não haverá angústia. O fim da angústia é estar em algum lugar intensamente, e estar disposta a partir para outro, intensamente. Não é budismo, fim do desejo, aniquilação da vontade, horror: é saber que eu continuo, aqui e lá. Não sou um fio cortado, ou prestes a sê-lo, minha vida não é uma linha nas mãos das Parcas gregas, que pode ser partida a qualquer momento. Eu atravesso, e existo. Meu ser é ilimitado. E no Ilimitado estou.
Idéias súbitas, loucas, e se eu me levantasse e fosse até aquela senhora, e lhe dissesse? A vida é - vêm-me as palavras, tropeço nelas, que ilusão, é que nada pode ser dito sem palavras. Nossa dependência delas é enorme. Eu diria: "A vida é" e a seguir o quê? Não faço o gesto, não me levanto, ela não me entenderia, e eu não tenho as palavras. Nós somos, eu podia dizer, Nós somos, e não simplesmente estamos, Nós somos! E ela me estranharia, as conveniências, eu seria tida por louca. Contudo, nós somos. A vida é. E tão maior, tão maior, maior do que tudo que já sonhamos; nem sabemos sonhar a verdade.
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