Sob o feitiço das boas intenções
Outubro 29th, 2008 / / por Walter Cruz
por Sören Kierkegaard
tradução Walter Cruz
Existe uma parábola nas Escrituras sobre a qual raramente refletimos, embora seja instrutiva e inspiradora. "Havia um homem que tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na vinha’. E este respondeu: ‘Não quero!’ Mas depois mudou de idéia e foi. O pai chegou ao outro filho e disse a mesma coisa. Ele respondeu: ‘Sim, senhor!’ Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?" (Mt. 21:28-31 - NVI). Poderíamos perguntar de outra forma: qual dos dois foi o filho pródigo? Pergunto-me se não foi o que disse "Sim," aquele que não somente disse "Sim," mas disse, "Sim, senhor!," como se mostrasse submissão incondicional e obediente à vontade do pai.
Qual é a lição dessa parábola? Não seria nos mostrar o perigo de dizer "Sim" sem reflexão, ainda que bem intencionado? Mesmo que o irmão-sim não tivesse intenção de enganar ao dizer "Sim", ele se tornou um embusteiro ao falhar em cumprir sua promessa. Na sua pressa em prometer, ele se tornou um enganador. Quando você diz "Sim" ou promete algo, você pode facilmente enganar a si mesmo e a outros, como se você já tivesse feito o prometido. É fácil pensar que, ao fazer uma promessa, você já tenha feito ao menos parte do que prometeu, como se a promessa em si tivesse algum valor. Nada disso! De fato, quando você não cumpre o que promete, tem um longo caminho de volta à verdade.
Cuidado! O "Sim" da promessa induz ao sono. Um "Não" honesto possui em si muito mais promessa. Ele pode estimular; e o arrependimento pode não estar tão longe. Aquele que diz "Não" passa a quase temer a si mesmo. Mas aquele que diz "Sim, eu vou" está muito satisfeito consigo mesmo. O mundo é muito inclinado - até mesmo ansioso - em fazer promessas, porque uma promessa parece muito boa no início - ela inspira! Por essa mesma razão, a eternidade suspeita de promessas.
Agora, suponha que nenhum dos dois irmãos tenha feito a vontade do pai. Então, aquele que disse "Não" estava certamente mais perto de perceber que ele não fez a vontade do pai. Um "Não" não esconde nada, mas um "Sim" pode facilmente se transformar num engodo, num auto-engano; que de todas as barreiras, é a mais difícil de superar. Ah, é verdadeiro também que "De boas intenções o inferno está cheio."
A coisa mais perigosa para uma pessoa é começar a andar pra trás, com a ajuda das boas intenções, especialmente com a ajuda das promessas; pois é quase impossível descobrir que alguém está realmente andando pra trás. Quando uma pessoa dá as costas para alguém e se vai, é fácil perceber qual caminho ela está tomando. Não é assim? Mas quando uma pessoa acha um modo de olhar na direção daquele de quem ele se afasta, e ao fazer isso anda de costas, enquanto aparenta cumprimentar aquele de quem ela se afasta, dando mais e mais garantias de que está vindo, ou falando incessantemente "Aqui estou" - mesmo que ele se afaste cada vez mais andando de costas - então não é tão fácil perceber. Acontece assim com aquele que, cheio de boas intenções e rápido em prometer, afasta-se cada vez mais do bem. Com a ajuda de intenções e promessas, ele mantém a impressão honesta de que ele está se movendo na direção do bem, mesmo que, enquanto isso, afaste-se cada vez mais dele. Com cada intenção e promessa renovadas, ele parece dar um passo pra frente, mas na realidade ele está apenas parado, ou ainda pior: está dando um passo para trás.
A boa intenção, o "Sim" dito em vão, a promessa não cumprida deixa um resíduo de desespero, de desânimo. Cuidado! Boas intenções podem irromper em mais declarações apaixonadas de intenções, mas somente para deixar para trás maior desespero. Como um alcóolatra requer constantemente uma dose mais forte, aquele que caiu no feitiço das boas intenções e na declaração constante de lisonjas requer cada vez mais boas intenções. Assim, ele não vê que está caminhando para trás.
Não louvamos o filho que disse "Não", mas aprendemos no Evangelho como é perigoso dizer "Sim, senhor!". Uma promessa relacionada a uma ação é de alguma forma semelhante a um changeling1 (uma criança secretamente trocada por outra) - precisamos vigiar constantemente. No momento em que a criança nasce, a alegria da mãe é maior, porque sua dor se foi. Quando, por causa de sua alegria, ela está menos vigilante - assim diz a superstição - poderes malignos vêm e colocam um changeling no lugar da criança. No momento inicial crucial quando uma jornada começa, forças inimigas introduzem um changeling na forma de uma promessa, assim nos furtando de fazer um início genuíno. Infelizmente, quantos têm sido enganados dessa maneira, sim, como se colocados sob um feitiço!
1. Sobre o changeling: http://diariodeumpsicoterapeuta.wordpress.com/2007/12/08/crianas-roubadas/
Tradução de um capítulo de Provocations, que pode ser obtido em http://www.plough.com/ebooks/Provocations.html
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6 comentários
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Um dos melhores artigos que já li.
[]'s
Cacilhas, La Batalema
PS: Walter, coloca as 5 estrelinhas aí pra mim, porque já sei que esse maldito b2evolution não vai colocar. :p
A parábola dos filhos sim e não é muito profunda, e sempre nos faz pensar! Abraços! Gostei do que li. Foi muito estranho, e acabei, aqui!
E quanto está parábola, já vi muitos SIMs e no final todos "maquiaram seu caráter) . Portanto a Bíblia é sábia! É só uma questão de interpretar!!! Ter paciência e disponibilizar um pouco de tempo.
Parabéns!!! Espero que existam mais pessoas como você no mundo! Para citar parabolas, salmos, poemas autorais, com uma visão atual e inteligente. Como a sua.
Agradecido pelos elogios Nancy! Continue visitando. 



