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Dois irmãos

O homem sentou-se no que havia sido um dia uma árvore, hoje era apenas um toco sem vida. Pensou naquele resto de vida sobre a qual estava sentado e divisou claramente sua própria natureza: o homem, para criar coisas, acaba sempre trilhando caminhos de morte. Olhou para a sua própria história até aquele momento e percebeu em si o mesmo padrão. Mesmo sendo um homem simples (um homem rude até, é o que muitos diriam), conseguia ver em seus próprios atos muitas ambiguidades. Nem sempre o bem que fez era carregado da bondade que ele supunha, até mesmo em seus melhores momentos, sua bondade enchia-se de uma característica rançosa, que hoje ele conseguia ver que estava lá, mas que no passado estivera oculta nas entrelinhas que ele não percebera. Mas não se desesperançou de todo: sabia que havia feito o seu melhor e sentia em seu íntimo que tudo ficaria bem.

Perto dali, encontrava-se parado um ser extradimensional. Refletia também. Pensava em como os humanos, que conheciam o bem e o mal, encontravam forças em meio as mais profundas decepções e tragédias da sua curta existência. Porque ele, que nunca havia provado do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, conhecia apenas o bem dentro de si mesmo, e o mal que ele via era apenas a antítese do bem que estava dentro dele. Mas os seres humanos conheciam o bem e o mal como contradição dentro deles mesmos. E mesmo contra a sua própria vontade, muitos escolhiam o bem. Lembrou-se de tantas mortes de gente de bem em que esteve junto, como um agente invisível. Gostava de se fazer sentir sem ser visto. Apreciava o fato de fazer o bem sem ser percebido. Se intrigava com o amor do seu Criador por aqueles seres nascidos do barro. E ainda assim, amava-os também.

E, naquele momento, sem que um pudesse penetrar a dimensão do outro, fizeram-se irmãos.

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