Tags: anjos
Dois irmãos
Abril 28th, 2009 / 8 feedbacks » / por Walter Cruz
O homem sentou-se no que havia sido um dia uma árvore, hoje era apenas um toco sem vida. Pensou naquele resto de vida sobre a qual estava sentado e divisou claramente sua própria natureza: o homem, para criar coisas, acaba sempre trilhando caminhos de morte. Olhou para a sua própria história até aquele momento e percebeu em si o mesmo padrão. Mesmo sendo um homem simples (um homem rude até, é o que muitos diriam), conseguia ver em seus próprios atos muitas ambiguidades. Nem sempre o bem que fez era carregado da bondade que ele supunha, até mesmo em seus melhores momentos, sua bondade enchia-se de uma característica rançosa, que hoje ele conseguia ver que estava lá, mas que no passado estivera oculta nas entrelinhas que ele não percebera. Mas não se desesperançou de todo: sabia que havia feito o seu melhor e sentia em seu íntimo que tudo ficaria bem.
Perto dali, encontrava-se parado um ser extradimensional. Refletia também. Pensava em como os humanos, que conheciam o bem e o mal, encontravam forças em meio as mais profundas decepções e tragédias da sua curta existência. Porque ele, que nunca havia provado do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, conhecia apenas o bem dentro de si mesmo, e o mal que ele via era apenas a antítese do bem que estava dentro dele. Mas os seres humanos conheciam o bem e o mal como contradição dentro deles mesmos. E mesmo contra a sua própria vontade, muitos escolhiam o bem. Lembrou-se de tantas mortes de gente de bem em que esteve junto, como um agente invisível. Gostava de se fazer sentir sem ser visto. Apreciava o fato de fazer o bem sem ser percebido. Se intrigava com o amor do seu Criador por aqueles seres nascidos do barro. E ainda assim, amava-os também.
E, naquele momento, sem que um pudesse penetrar a dimensão do outro, fizeram-se irmãos.
Anjos
Março 8th, 2005 / 14 feedbacks » / por Walter Cruz
Mateus 22:23-24
No mesmo dia chegaram junto dele os saduceus, que dizem não haver ressurreição, e o interrogaram, dizendo: Mestre, Moisés disse: Se morrer alguém, não tendo filhos, casará o seu irmão com a mulher dele, e suscitará descendência a seu irmão. Ora, houve entre nós sete irmãos; e o primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou sua mulher a seu irmão. Da mesma sorte o segundo, e o terceiro, até ao sétimo; por fim, depois de todos, morreu também a mulher.
Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será a mulher, visto que todos a possuíram? Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu. E, acerca da ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó? Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos.
Ora, hoje é comemorado o Dia Internacional da Mulher. E, embora não tivesse preparado nada de antemão (de certa forma, nem mesmo sou muito ligado a essas comemorações), ocorreu-me de tentar expor o que penso ser a forma com que Jesus tratava a dignidade feminina.
No texto acima, os fariseus propõem uma historinha pra Jesus, com o intuito de testá-lo. Mas, a historinha de dois milênios atrás poderia ser a historinha de tantas Marias Marias que existem mundo afora: é a história de mulheres que não são tratadas com a dignidade merecida, mas sim como mercadorias. Ora, a pobre coitada, embora tenha participado de sete transações comerciais matrimoniais, nunca foi de fato casada com nenhum deles. Reparem que no âmago da questão, ela teve sete proprietários, mas não teve um que a amasse de fato.
Quisera eu que essa historinha fosse apenas isto mesmo: uma história. Mas, na sociedade em que vivemos, quantas vezes vemos isso acontecer!? E o que é pior, quantas vezes as próprias mulheres têm se submetido a isto: a ser um objeto de desejo, um objeto de transa-ação, uma mercadoria sobre a qual são feitas negociações e barganhas sem fim?
Interessante é que a Escritura propunha àquele que conhece a verdade em seu âmago que não viva mais dessa forma desumana, mas que reconheça que todo ser humano - homem ou mulher, criança ou adulto, rico ou pobre - é tão sagrado e tão livre como um anjo. Na ressurreição, nem se casam (visando apenas à manutenção do sistema matrimonial mercantil) e nem se dão em casamento (como se fossem mercadorias inanimadas), mas são como os anjos do céu: livres. Santos. Sagrados.
Sim, todo amor é sagrado. E o fruto do trabalho é mais que sagrado. Para aquele que conhece Deus, todo ser humano (mulheres, inclusive) é tão sagrado como o é o arcanjo Miguel. E eu creio que todo anjo sagrado, no fundo no fundo, gostaria de ter a graça de uma mulher.




