Tags: kierkegaard

Matem os comentaristas!

de Søren Kierkegaard, tradução por Walter Cruz

A massa atual de intérpretes da Bíblia tem prejudicado, mais do que ajudado, o nosso entendimento dela. Na leitura dos acadêmicos, tornou-se necessário agir como se faz em uma peça de teatro, onde a profusão de espectadores e luzes impede, por assim dizer, nosso prazer da peça em si e, no lugar disso, somos tratados como pequenos incômodos. Para ver a peça, temos de ignorar essas coisas, se for possível, ou entrar por um caminho que ainda não tenha sido bloqueado. O comentarista [da Bíblia] se tornou um intrometido dos mais perigosos.

Se você quer entender a Bíblia, certifique-se de lê-la sem um comentário. Pense em um casal apaixonado. Ela escreve uma carta para o seu amado. Ele estaria preocupado com o que os outros pensam dessa carta? Ele não a leria toda sozinho? Colocando em outra forma, nem passaria pela sua cabeça ler essa carta com um comentário! Se a carta de sua amada estivesse em uma linguagem que ele não compreendesse, então ele aprenderia essa linguagem, mas certamente não leria a carta com o auxílio de comentários. Eles seriam inúteis. O seu amor por sua amada e a sua disposição de cumprir seus desejos o tornariam mais capaz de entender sua carta. O mesmo se dá com a Escritura. Com a ajuda de Deus, podemos entender a Bíblia toda corretamente. Cada comentário retira algo, e aquele que se senta com dez comentários para ler as Escrituras estará provavelmente escrevendo o décimo-primeiro, mas certamente não estará lidando com as Escrituras.

Suponha agora que essa carta apaixonada tenha um atributo único: cada ser humano é alvo desse amor. E agora? Deveremos nos sentar e discutir o significado uns com os outros? Não, cada um de nós deveria ler essa carta individuamente, como se fora o único indivíduo que tivesse recebido essa carta de Deus. Na leitura, estaremos preocupados principalmente conosco e em nosso relacionamento com Ele. Não nos focaremos em detalhes como 'essa passagem pode ser interpretada dessa forma' e 'aquela passagem pode ser interpretada dessa outra forma', não! O importante para nós será agirmos o mais rápido possível.

Será que o amado não pode nos dar algo que nenhum comentarista pode? Pense nisso! Nós não somos os melhores intérpretes de nossas próprias palavras? Depois disso, [o  melhor intérprete] é aquele que nos ama. E em relação a Deus, não seria o verdadeiro crente o Seu melhor intérprete? Não nos esqueçamos: as Escrituras são as placas de sinalização, Cristo é o caminho. Matem os comentaristas!

É claro, não são apenas os comentaristas que estão errados. Deus quer forçar cada um de nós a voltar ao essencial, para um início infantil. Porém não queremos estar nus dessa forma perante Deus. Todos preferimos os comentaristas. Assim, cada geração que passa fica ainda mais fraca.

O que realmente precisamos então é de uma reforma que coloque a própria Bíblia de lado. Sim, isso tem tanta validade agora quanto Lutero rompendo com o Papa. A ênfase atual em voltar à Bíblia tem, tristemente, criado religiosidade do aprendizado e dos sofismas literais – um desvio total. Esse conhecimento tem sido repassado de forma trágica para as massas de modo que ninguém mais pode tão-somente ler a Bíblia. Todo nosso aprendizado bíblico tornou-se uma fortaleza de desculpas e escapes. Quando se trata da vida, da obediência, sempre tem alguma coisa com a qual precisamos lidar primeiro. Vivemos sob a ilusão de ser necessária a interpretação correta ou termos uma crença perfeita, antes como pré-requisitos para começar a viver – isto é,  usamos isso como desculpa para não fazer o que a Palavra diz.

Há muito tempo, a igreja tem precisado de um profeta que, em temor e tremor, tenha a coragem de proibir o povo de ler a Bíblia. Sou tentado, portanto, a fazer a seguinte proposta: recolhamos todas as Bíblias e as levemos a um lugar aberto ou a uma montanha e, então, enquando todos nós nos ajoelhamos, alguém fale com Deus desta forma: "Leve de volta esse livro. Nós, cristãos, não estamos aptos a nos envolver com tal coisa; ela somente nos torna orgulhosos e infelizes. Não estamos prontos para ela". Em outras palavras, eu sugiro que, como aqueles habitantes cujos porcos foram precipitados na água e morreram, imploremos a Cristo para "que deixe nossa vizinhança" (Mt. 8:34). Isso ao menos seria uma declaração honesta – algo muito diferente do erudicionismo nauseante e hipócrita que é tão comum hoje.

A questão toda é muito simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós, cristãos, somos um bando de vigaristas cheios de intrigas. Fingimos que somos  incapazes de entender porque sabemos que, no mesmo instante em que entendermos, seremos obrigados a agir de acordo. Pegue quaisquer palavras do Novo Testamento e esqueça tudo, exceto comprometer-se a agir de acordo. Você dirá: "Meu Deus, se eu fizer isso, minha vida inteira será arruinada. Como eu poderia ser bem sucedido no mundo?"

Aqui reside o verdadeiro lugar da erudição cristã: a erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para se defender da Bíblia, para garantir que possamos continuar a ser bons cristãos sem nos aproximarmos demais da Bíblia. Oh, erudição preciosa, o que faríamos sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. Sim, é mesmo horrível ficar a sós com o Novo Testamento.

Abro o Novo Testamento e leio: "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e segue-me". Bom Deus, se nós realmente fizéssemos isso, todos os capitalistas, os legisladores e os empresários, de fato, toda a sociedade, seria composta de mendigos! Estaríamos afundados, não fosse a erudição cristã! Louvados sejam todos que trabalham para consolidar a reputação da erudição cristã, que ajudam a reprimir o Novo Testamento, esse livro confuso que nos desmontaria se fosse realmente livre (isto é, se a erudição cristã não o reprimisse).

A Bíblia ordena com autoridade em vão. Ela admoesta e implora em vão. Nós não a ouvimos – ou seja, nós ouvimos sua voz por intermédio da interfência da erudição cristã, os experts que foram apropriadamente treinados. Assim como um estrangeiro que protesta seus direitos em um idioma desconhecido não se importa em dizer palavras ousadas face a autoridades – mas, veja, o intérprete que traduz o que ele fala para as autoridades não se atreve a fazê-lo, mas substitui essas palavras por outras mais amenas – assim é a Bíblia lida pela ótica das interpretações cristãs.

Declaramos que a erudição cristã existe especificamente para nos ajudar a entender o Novo Testamento, de forma que possamos compreendê-lo melhor. Nenhum homem insano ou prisioneiro de Estado foi tão confinado quanto o Novo Testamento. Embora todos fiquem preocupados, ninguém nega que eles estão enclausurados, mas as preocupações em relação ao Novo Testamento são ainda maiores. Nós o enclausuramos, mas alegamos estar fazendo o oposto: que estamos muito ocupados ajudando o Novo Testamento a ter mais clareza e direção. Mas, é claro, nenhum maluco ou prisioneiro de Estado seria tão perigoso para nós como o Novo Testamento, se ele fosse livre.

É verdade que nós, protestantes, fizemos um grande esforço para que cada pessoa pudesse ter a Bíblia – mesmo na sua própria língua. Ah, mas que esforços nós tomamos para insistir junto a todos que ela pode ser entendida apenas por intermédio dos acadêmicos cristãos! Essa é a nossa situação atual. O que tenho tentado mostrar aqui é facilmente declarado: eu queria fazer as pessoas conscientes e admitir que acho o Novo Testamento muito fácil de compreender, mas, até agora, tenho achado tremendamente difícil agir de maneira literal sobre o que ele diz de forma tão clara. Eu talvez pudesse tomar uma outra direção e inventar um novo tipo de acadêmicos, trazendo à tona ainda mais um comentário, mas estou muito mais satisfeito com aquilo que eu tenho feito - fiz uma confissão sobre mim mesmo.

________

Tags: , ,

Sob o feitiço das boas intenções

por Sören Kierkegaard
tradução Walter Cruz

Existe uma parábola nas Escrituras sobre a qual raramente refletimos, embora seja instrutiva e inspiradora. "Havia um homem que tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na vinha’. E este respondeu: ‘Não quero!’ Mas depois mudou de idéia e foi. O pai chegou ao outro filho e disse a mesma coisa. Ele respondeu: ‘Sim, senhor!’ Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?" (Mt. 21:28-31 - NVI). Poderíamos perguntar de outra forma: qual dos dois foi o filho pródigo? Pergunto-me se não foi o que disse "Sim," aquele que não somente disse "Sim," mas disse, "Sim, senhor!," como se mostrasse submissão incondicional e obediente à vontade do pai.

Qual é a lição dessa parábola? Não seria nos mostrar o perigo de dizer "Sim" sem reflexão, ainda que bem intencionado? Mesmo que o irmão-sim não tivesse intenção de enganar ao dizer "Sim", ele se tornou um embusteiro ao falhar em cumprir sua promessa. Na sua pressa em prometer, ele se tornou um enganador. Quando você diz "Sim" ou promete algo, você pode facilmente enganar a si mesmo e a outros, como se você já tivesse feito o prometido. É fácil pensar que, ao fazer uma promessa, você já tenha feito ao menos parte do que prometeu, como se a promessa em si tivesse algum valor. Nada disso! De fato, quando você não cumpre o que promete, tem um longo caminho de volta à verdade.

Cuidado! O "Sim" da promessa induz ao sono. Um "Não" honesto possui em si muito mais promessa. Ele pode estimular; e o arrependimento pode não estar tão longe. Aquele que diz "Não" passa a quase temer a si mesmo. Mas aquele que diz "Sim, eu vou" está muito satisfeito consigo mesmo. O mundo é muito inclinado - até mesmo ansioso - em fazer promessas, porque uma promessa parece muito boa no início - ela inspira! Por essa mesma razão, a eternidade suspeita de promessas.

Agora, suponha que nenhum dos dois irmãos tenha feito a vontade do pai. Então, aquele que disse "Não" estava certamente mais perto de perceber que ele não fez a vontade do pai. Um "Não" não esconde nada, mas um "Sim" pode facilmente se transformar num engodo, num auto-engano; que de todas as barreiras, é a mais difícil de superar. Ah, é verdadeiro também que "De boas intenções o inferno está cheio."

A coisa mais perigosa para uma pessoa é começar a andar pra trás, com a ajuda das boas intenções, especialmente com a ajuda das promessas; pois é quase impossível descobrir que alguém está realmente andando pra trás. Quando uma pessoa dá as costas para alguém e se vai, é fácil perceber qual caminho ela está tomando. Não é assim? Mas quando uma pessoa acha um modo de olhar na direção daquele de quem ele se afasta, e ao fazer isso anda de costas, enquanto aparenta cumprimentar aquele de quem ela se afasta, dando mais e mais garantias de que está vindo, ou falando incessantemente "Aqui estou" - mesmo que ele se afaste cada vez mais andando de costas - então não é tão fácil perceber. Acontece assim com aquele que, cheio de boas intenções e rápido em prometer, afasta-se cada vez mais do bem. Com a ajuda de intenções e promessas, ele mantém a impressão honesta de que ele está se movendo na direção do bem, mesmo que, enquanto isso, afaste-se cada vez mais dele. Com cada intenção e promessa renovadas, ele parece dar um passo pra frente, mas na realidade ele está apenas parado, ou ainda pior: está dando um passo para trás.

A boa intenção, o "Sim" dito em vão, a promessa não cumprida deixa um resíduo de desespero, de desânimo. Cuidado! Boas intenções podem irromper em mais declarações apaixonadas de intenções, mas somente para deixar para trás maior desespero. Como um alcóolatra requer constantemente uma dose mais forte, aquele que caiu no feitiço das boas intenções e na declaração constante de lisonjas requer cada vez mais boas intenções. Assim, ele não vê que está caminhando para trás.

Não louvamos o filho que disse "Não", mas aprendemos no Evangelho como é perigoso dizer "Sim, senhor!". Uma promessa relacionada a uma ação é de alguma forma semelhante a um changeling1 (uma criança secretamente trocada por outra) - precisamos vigiar constantemente. No momento em que a criança nasce, a alegria da mãe é maior, porque sua dor se foi. Quando, por causa de sua alegria, ela está menos vigilante - assim diz a superstição - poderes malignos vêm e colocam um changeling no lugar da criança. No momento inicial crucial quando uma jornada começa, forças inimigas introduzem um changeling na forma de uma promessa, assim nos furtando de fazer um início genuíno. Infelizmente, quantos têm sido enganados dessa maneira, sim, como se colocados sob um feitiço!

1. Sobre o changeling: http://diariodeumpsicoterapeuta.wordpress.com/2007/12/08/crianas-roubadas/

Tradução de um capítulo de Provocations, que pode ser obtido em http://www.plough.com/ebooks/Provocations.html

Tags: , , ,

Dia Mundial do Livro

Conforme instituiu a Unesco, ontem foi o Dia Mundial do Livro!

Livros sempre fizeram parte da minha vida, desde muito cedo. Lembro-me do livro de capa verde com o qual fui alfabetizado. Lembro-me dos velhos livros de Sherlock Holmes de meu pai, os quais li quando ainda era menino. Resolvi ler a Bíblia toda quando adolescente, no esquema que é sugerido nas últimas páginas: 3 capítulos por dia da semana e 5 aos domingos, para ler a Bíblia toda em um ano. Terminei, mas levei mais de um ano. No meio tempo dessa leitura (que, depois de um tempo, revelou-se mais uma obrigação que um prazer), eu lia de tudo. Bulas de remédio. As revistas Seleções do Reader's Digest do meu pai. Algumas, mais velhas que eu.

Esforcei-me pra ler as "Confissões", de Santo Agostinho, mas os "tus", "vós" e todas as conjugações desse tipo assassinaram a leitura. De Kierkegaard, li o "Desespero Humano". Desesperei-me de lê-lo também. Terminei para dizer que terminei. Porém, li alguns livros com muito prazer: "O que se diz e o que se entende", de Cecília Meireles, e "As crônicas de Nárnia", de C. S. Lewis, por exemplo.

Já que não pude passar numa livraria, fiz uma comemoração discreta do Dia Mundial do Livro: comprei pra minha namorada um quadrinho da Turma da Mônica. Com certeza uma leitura mais leve que Santo Agostinho e Kierkegaard[bb]. Porque, afinal, nem só de filosofia vive o homem, mas de riso também.

Tags: , , ,