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Walter Cruz
22/10/2008

Escolhendo fazer o mal

Se você tivesse em seu poder a cura para uma doença até então incurável, você guardaria segredo pra si, se soubesse que, divulgando-a, a pessoa que você mais odeia pudesse beneficiar-se dessa cura? Se a sua própria existência fizesse bem a quem lhe faz mal, a quem lhe aborrece, você pensaria em tirar a sua própria vida para que essa pessoa não possa beneficiar-se - nem de forma indireta - do bem que você pudesse lhe causar por apenas existir?

Jonas, o profeta, era uma pessoa assim. Chamado para pregar uma mensagem de arrependimento para o povo de Nínive, ele não o fez por ter medo da bondade e misericórdia de Deus. De fato, o seu pensamento era o de que eles não mereciam nenhuma chance de vida, nem que pra isso ele mesmo tivesse de chegar à morte. E o profeta empreende uma maratona suicida. Em meio à tempestade no mar, onde o navio em que ele tinha embarcado estava prestes a afundar, ele dorme. Quando os homens clamavam cada um de sua forma pelas suas vidas, Jonas aguarda silenciosamente a morte. Quando descobrem que ele é a causa, ele escolhe 'voluntariamente' ser jogado no mar.

Se a sua morte pudesse fazer mal a quem ele detestava, porque não provocá-la ele mesmo? Ele apenas não tinha coragem de cometer o suicídio, mas não haveria problema pra ele se uma bala perdida o acertasse. Mesmo tendo o seu plano frustrado por Deus, que lhe enviou um grande peixe para que o engolisse, ele apenas pede ajuda a Deus no terceiro dia. Finalmente, por falta de opção, Jonas dá o braço a torcer. E, para seu desespero, os ninivitas se arrependem. Mas ele é resistente. Fez acampamento perto da cidade. Uma espécie de torcida satânica, esperando que de alguma forma o mal acontecesse a todas aquelas pessoas. Para desespero de Jonas, nada acontece.

Essa é resumidamente a história descrita no pequeno livro de Jonas, cujos quatro capítulos podem ser lidos em poucos minutos. As razões para esse ódio de Jonas não estão descritas. Talvez tenha começado porque ele achava que o povo judeu tivesse direitos e, de alguma forma, os ninivitas estivessem negando esse direito. Pra falar a verdade, não importa quais eram as razões, pois, segundo o próprio Deus afirma, não eram razoáveis, e naquele momento, elas falavam mais a respeito do próprio Jonas que de qualquer um. O fato é que ele estava disposto a morrer para que o mal acontecesse aos ninivitas. Algo como o avesso da redenção. Jonas estava disposto a ser o satanás de seus inimigos! Jonas preferiria amputar-se a ter de andar uma única milha com seus inimigos!

Não será essa a nossa condição? Cheios de razões, cínicos e perversos, não nos importamos que o mal nos aconteça para que a pessoa a quem aborrecemos leve a pior. Escolhemos causar o mal a outros, mesmo que nos custe a honra, os bagos, a vida. Embarcamos em missões suicidas. Somos os kamikazes de nossos próprios umbigos. Que Aquele que pode dormir em meio às tempestades, por ter o poder de acalmá-las, possa livrar-nos desse mal!

Walter Cruz
28/05/2008

A fonte da vida

Um filme complexo e denso, cuja sinopse na contracapa não ajuda muito a descrevê-lo. Esse é o filme A fonte da vida (The Fountain), estrelado por Hugh Jackman e Rachel Weisz.

Tinha quase tudo para naufragar: Brad Pitt e Cate Blanchet, que iriam estrelar o filme, pularam fora. O diretor e roteirista, Darren Aronofsky, conseguiu ressuscitar o projeto algum tempo depois, mas com a metade do orçamento apenas. O uso de efeitos especiais no computador foi reduzido, no seu lugar entrou a macro-fotografia como forma de baratear a produção.

As histórias são fragmentadas em cenas entrecortadas. As histórias do cientista, do conquistador e do astronauta se misturam de forma enigmática e intrincada. A vida e a morte aparecem em cada cena. A busca pela vida e, mais ainda, a transcendência sobre a morte são exploradas com beleza no filme. Uma boa pausa para a reflexão, em meio a sessões mais leves do nosso dia-a-dia.

"Eu penso que a humanidade é definida por sua mortalidade. Quero dizer, esse é o assunto da história do Gênesis. Eles beberam da árvore do conhecimento e, antes de beberem da árvore da vida, foram expulsos. E a questão é: se eles tivessem bebido da árvore da vida, eles teriam se separado do seu criador? Então, o que nos torna realmente humanos é a morte. É o que nos torna especiais." (Darren Aronofsky)