Nada de triste existe que não se esqueça
Alguém insiste e fala ao coração
Tudo de triste existe e não se esquece
Alguém insiste e fere o coração
Nada de novo existe nesse planeta
Que não se fale aqui na mesa de bar
(Milton Nascimento/Fernando Brandt - Saudade dos aviões da Panair)
Ontem, ao ver amigos mostrando suas alianças, eu olhei para o dedo onde anteriormente ficava a minha. Eles diziam que apesar dos poucos dias usando, o dedo já estava marcado. Para minha surpresa, a marca que havia no meu dedo tinha sumido.
Mas marcas profundas existem que não sumirão ao pôr-do-sol. Desenhadas na memória cenas de risos, de cumplicidades, de afagos, de olhares, de trocas, de lágrimas, de vontade de ser feliz, de uma alegria imensa.
Essas marcas não sumirão.

Dedico esse texto pra minha amada Aline. É por te amar muito que eu estou aqui!
Era um sábado ensolarado em São Paulo, como hoje está ensolarado em Brasíla. A passagem já estava comprada há alguns dias. A viagem estava certa. Meu pai foi comigo até a rodoviária. Ajudou-me com as malas pesadas, que continham mais CDs e livros do que roupas. Na livraria da rodoviária, comprei para o meu pai um romance policial de Georges Simenon. Anotei a data: 19 de março de 2005. Nem precisava.
A viagem foi longa. Meu discman foi meu companheiro. Havia recarregado minhas pilhas justo praquela ocasião. Hoje, não as recarrego mais: queimei meu carregador de pilhas na primeira semana aqui em Brasília. Devia ter perguntado a alguém se nesta cidade o comum era 110 ou 220 volts. Mas isso foi apenas uma pequena perda comparado com tudo o que ganhei na mudança.
Desembarquei em Brasília há exatos dois anos. Fazia sol por estas redondezas. Fiquei ansioso ao chegar à rodoviária daqui. Pensei por um instante que ninguém vinha me buscar. Fiquei esperando lá em baixo mesmo: não sabia para onde ir. Demorei a encontrar minha namorada. Até que finalmente ela chegou. Esse era o momento pelo qual eu esperava desde quando deixei São Paulo.
As semanas que se seguiram foram alegres e confusas. Eu estava em outra cidade. Outro clima. Iria me sair bem? Dois anos depois, sinto-me seguro para responder que me saí bem. Ainda não conheço muita coisa das terras brasilienses. Mas tudo bem. Tinha muita coisa que eu não conhecia em São Paulo.
Hoje, olho para essa cidade e sei que aqui é meu lar. Aqui está a mulher que eu amo. Quando ela sorri pra mim, me sinto seguro. Se brigamos, sinto-me despedaçado em mil pedaços. Quando estamos juntos, sinto-me mais forte, mais tranquilo, mais pacificado. Espero que ela se sinta assim também. Foi por isso que vim.